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 A GÊNESE DO “OUTRO QUE NÃO EXISTE”

 

 

Pierre-Gilles Guèguen
Especialização em Psicopatologia pela Universidade de Rennes
Doutorado de Estado em gestão
Professor conferencista no Departamento de Psicanálise de Paris VIII
Psicanalista, AME da École de la Cause Freudienne
Membro da Associação Mundial de Psicanálise
pggueguen@orange.fr

 

Resumo

Lacan conceituou o sujeito da psicanálise a partir de Descartes. A este sujeito corresponde um conceito de Outro como sujeito suposto saber. A análise do deslocamento de Descartes a Pascal permitiu a Lacan redefinir o conceito de Outro. O Outro não é somente incompleto e dependente de uma base suposta como em Descartes. O Outro de Pascal é inconsistente, está em todo lugar e em lugar nenhum. Ele não existe e é por isto que deve ser objeto de aposta. É a aposta, o ato do sujeito, sua crença, que faz existir o Outro e não o sabe.


Palavras-chave: sujeito, Outro, psicanálise, Descartes, Pascal.

 

   
 

 

THE GENESIS OF “THE UNEXISTING OTHER”

Abstract

Lacan defined the subject of psychoanalysis based on Descartes. To this subject corresponds a concept of Other as knowledge-supposed subject. The analysis of the shift from Descartes to Pascal allowed Lacan to redefine the concept of Other. The Other is not only incomplete and co-dependent on a supposed base as in Descartes. Pascal’s Other is inconsistent, and it is everywhere and nowhere. It does not exist therefore it must be an object of betting. It is the bet, the subject’s act, its creed which makes the Other exist, and not the knowledge.

Key words: subject, Other, psychoanalysis, Descartes, Pascal

 


A partir do Seminário XVI, é com Pascal, e não mais com Descartes, que Lacan constrói o sujeito da psicanálise. François Regnault, em seu curso, convidava a ler o livro de Henri Gouhier (2007) sobre Blaise Pascal, que é de fato uma referência notável sobre a qual irei me basear.

 

O Deus de Pascal, um Deus da revelação

É útil dizer algumas palavras do Memórial, de Pascal (1654), pois Lacan lhe faz referência de maneira cada vez mais insistente ao longo do tempo: nos Écrits, em 1958, mas também, em diferentes ocasiões no seminário “Problemas cruciais para a psicanálise” (1964-65) e de forma mais elaborada no Livro XVI de seu seminário, D’un Autre à l’autre.

O Memorial é um texto que foi achado por ocasião de sua morte, rabiscado em um pedaço de papel, copiado em um pergaminho e costurado no forro de suas roupas. Na noite do dia 23 de novembro de 1654, Pascal tinha trinta e um anos, entre dez e meia da noite e meia noite e meia, mais ou menos, ele escreve o seguinte texto, ao qual Lacan, desde os escritos, faz referência.

No ano de graça 1654, Segunda-feira 23 de novembro, dia de São Clemente, Papa, mártir, e outro, desde dez e meia da noite, até meia noite e meia.
Fogo.
Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó
Não dos filósofos e dos sábios
Deus de Jesus Cristo
Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz,
Deum meum et Deum vestrum
Teu Deus será o meu Deus
Esquecimento do mundo e de todo o resto exceto Deus.[...]
(Pascal
, 1654).

Este é um texto que marca uma reviravolta na vida de Pascal, pois, apesar de sempre ter sido religioso, tinha levado até aí uma vida mundana, como se dizia na época. Ele já tinha uma vida científica de alto nível e o reconhecimento de vários cientistas. A partir deste momento, 1654, ele adota um modo de vida ascético e se aproxima de Port-Royal, isto é, dos jansenistas, católicos fervorosos e partidários, contrários ao relaxamento religioso da corte e seu galicanismo, muito rigoroso na prática da religião, comparável ao dos protestantes, cujas crenças na graça e na predestinação, eles também tinham.

É a esse Deus que Pascal se refere quando diz: “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, não dos filósofos e dos sábios” (Lacan, 1963). Ele mesmo é filósofo e sábio, portanto é contra si mesmo que escolhe este endereçamento a Deus. Evidentemente, é o Deus do Antigo Testamento, mas, sobretudo, o que faz a grande diferença em relação ao procedimento cartesiano, é que não é um deus da construção intelectual, da adequação do pensamento e do ser, é um deus da revelação.

O Deus dos filósofos é o Deus tal qual poderia ser pensado o da prova ontológica de são Anselmo (eu sou obrigado a achar que existe Deus porque existe sempre alguma coisa no universo que me escapa). O Deus de Pascal não pode ser reduzido a isso, muito menos ao Deus dos sábios de Descartes; Pascal não tem grande simpatia por Descartes e não compartilha sua idéia de um Deus como garantia do edifício da razão. Ele exige um ato de fé. É a partir deste momento que a ele se impõe a necessidade de pensar o Deus da revelação, a partir do qual ele construirá sua famosa aposta, que supomos que ele tenha escrito ao final do Memorial, de 1657.

 

Necessidade da aposta “cara ou coroa”

A aposta de Pascal é uma aposta religiosa, que se baseia na distinção entre o finito e o infinito. O primeiro folheto da aposta é dedicado à questão de como pode ser concebido o finito e o infinito. Assim, Pascal formula: “Finita a extensão do meu corpo, eu conheço a existência e a natureza do finito”. É o corpo que para ele é finito, a extensão dele. Em segundo lugar: “sendo finito, não posso conhecer a natureza de nenhum infinito (...) como demonstrou a matemática, eu conheço a existência do infinito, mas não sua natureza”. Terceiro parágrafo: “mas, não conhecemos nem a natureza nem a existência de Deus, porque ele não tem nem extensão nem fronteiras”.

Resumindo o que diz Pascal é: já que não podemos conhecer Deus, temos que apostar! Temos que jogar, como se dizia na época, “cara ou coroa”.

Diante do infinito sem extensão, de coisas que não podemos conhecer, só nos resta apostar. “Temos que apostar, não é uma escolha, vocês estão embarcados. Qual é a sua escolha?” Pascal (1654) aponta para uma escolha forçada. Não apostar na existência de Deus como Outro, ainda é apostar. Entretanto, esta aposta não deixa de apresentar uma faceta “utilitarista”: “Há duas coisas a perder: a verdade e o bem, duas coisas são necessárias: sua razão e sua vontade, seus conhecimentos e sua beatitude (...) duas coisas a se evitar, o erro e a miséria. O fato de escolher um ao invés do outro não ferirá sua razão, afinal, é necessário escolher. Mas, sua beatitude? Pesemos o ganho e a perda”. Assim, a aposta de Pascal, introduz em relação a Descartes uma aposta probabilística. Freqüentemente, e não sem razão, pensou-se que a introdução à era da ciência moderna, assim como a introdução ao método experimental nasceram com Descartes. É muito mais correto considerar que as ciências modernas se fundaram na probabilidade, como recentemente o demonstrou mais uma vez Ian Hacking (2001).

Lacan diz em “A ciência e a verdade” (1966) que o verdadeiro modelo das ciências contemporâneas é a física: desde o início do século XX, após o enunciado do princípio de Heisenberg1, elas têm se fundado no cálculo probabilístico. Não é possível, por exemplo, calcular a posição de um elétron ao mesmo tempo como corpúsculo e como onda. É necessário recorrermos a métodos probabilísticos. Numerosos paradigmas da física moderna se fundam muito mais na aposta de Pascal (especialmente no que chamamos hoje em dia de nanociências2 e de astrofísica, isto é, para o infinitamente pequeno e para o infinitamente grande) que na razão cartesiana, que funciona muito melhor para as ciências experimentais que se desenvolveram nos séculos XIX e XX.

Então, retornando a Pascal, uma questão se impõe: como escolher? “Vamos medir o ganho e a perda acreditando que Deus é a beatitude. Pesemos ganho e perda, estimemos os dois casos. Se ganharem, ganharão tudo, se perderem não perderão nada. Apostem sem hesitação”. Podemos ver que Pascal procura convencer seu interlocutor de que não há nada a perder nesta escolha forçada.

 

Lacan com Pascal

O que eu gostaria de examinar de mais perto, é a forma como Lacan faz uso do termo “aposta de Pascal” em diferentes momentos. Em janeiro de 1965 encontramos a aposta em “Os problemas cruciais da psicanálise” (1964-65), seminário que se segue aos “Quatro conceitos fundamentais” (1964). Nele, Lacan analisa a questão do número e da sua importância para o acesso da criança à linguagem. Para isso, ele toma o exemplo de uma menininha a quem são mostrados 3 copos e ela lhe diz que há 4. Lacan lhe pergunta: “Nós estamos vendo os 4 copos?” – “Claro, ela diz, 1,2,3,4”, sem nenhuma hesitação. Contrariamente a Piaget que, na qualidade de ancestral dos cognitivistas, diria que a inteligência da criança não está suficientemente avançada para incluir o zero, Lacan considera que o 4 é o zero para ela, pois é a partir deste zero que ela conta, pois com seus quatro anos e meio de idade, ela já é o pequeno círculo, o buraco do sujeito. Lacan traz aí a idéia de que o sujeito, pontual e fugidio, pode muito bem, assim como o fez grande parte da humanidade antes de entrar no sistema decimal, viver sem zero. Esta menina, não tendo a sua disposição o zero, utiliza o 4 como 0. Não é necessário relembrar que o sujeito da psicanálise não é um sujeito de aprendizagem.

Lacan (1964-65) prossegue: “(...)  é na grande edição Haveste, na página 72 dos Pensées, que verão a referência a esta famosa esfera infinita cujo centro fica em todo lugar, e a circunferência em lugar nenhum.”

Quando Pascal falava de círculo, ele não era um ignorante na matéria, pois, em meio a seus diversos trabalhos figuram estudos em primeiro plano em geometria de projetos (junto com Fermat) e sobre probabilidades. Portanto, quando ele se refere ao círculo cujo centro está em todo lugar e a circunferência em lugar nenhum para descrever Deus, ou seja, sua concepção de Outro, é extremamente precisa.

Traduzindo em termos grosseiros aquilo que opõe Descartes e Pascal, eu diria que um raciocina em termos de lugares, o outro em termos de topologia. Evidentemente que estou forçando um pouco, mas a construção cartesiana do Método supõe a “tábula rasa” de todo conhecimento, em seguida a construção analítica que dá lugar a cada uma das etapas do raciocínio, então para concluir, chama-se Deus, que tinha sido afastado de início, e que serve de  certa forma como base para toda a construção. É claro que existe o risco de Deus ser um mau gênio que nos engana (Descartes, 2000). Mas Descartes lê no saber a presença de Deus, seu “sujeito suposto saber”.

A epistemologia de Pascal é mais complexa, pois, segundo ele, Deus está em qualquer lugar e em lugar nenhum, seu lugar não está designado. O Outro não é somente incompleto como em Descartes, e dependente de uma base suposta. O Outro de Pascal é inconsistente, em todo lugar e em lugar nenhum, ele não existe, é por isto que ele deve ser objeto de aposta. É a aposta que faz existir o Outro e não o saber; é o ato do sujeito, sua crença. Já podemos aí perceber porque Lacan desenvolveu um interesse tão particular em Pascal à medida que começava a considerar que o Outro era não só incompleto como também inconsistente. Isto é, que não existe Outro universal.

É entre outras coisas o que Jacques-Alain Miller e Éric Laurent formalizaram e desenvolveram em seu curso de 1995 intitulado: “O Outro que não existe e seus comitês de ética”. Neste curso, eles tiram as conseqüências do ensinamento de Lacan que vai do Seminário XI ao Seminário XX, para saber como nos orientarmos no mundo em que nós vivemos, no qual não existe Outro universal, não há Outro absoluto correlacionado ao Nome-do-Pai.

 

Pela via do sintoma

Em Pascal a existência de Deus não estava assegurada, temos todo o interesse em apostar nela, mas não é uma certeza. O que existe entretanto é o gozo. Falando de Pascal em “O saber do psicanalista”, Lacan (1971-72) diz que basta ler a biografia escrita por sua irmã “para ver a que ponto sua angústia, seus abismos, e todo o horror do qual ele estava cercado poderia ter tido sua causa na aversão que ele demonstra tão precocemente, levada até o pânico, à crise, às convulsões, a cada vez que ele vê os pais apaixonados se aproximarem da cama. É alguma coisa que se deve levar em conta, desde que estejamos em condições de nos colocarmos a pergunta sobre qual é o limite que a neurose deve impor ao sujeito”.

Lacan apresenta então Pascal a seu auditório, essencialmente psiquiatras que estão em Sainte-Anne, como um neurótico obcecado pelo assombro da cena primitiva. Lacan atenta para o fato de que era por ser tão neurótico que ele conseguiu elaborar coisas tão extraordinárias. Esse movimento de interesse pelo sintoma como fonte de criação, culminará em Lacan (1975-76) no seu ensinamento a respeito se Joyce.

Lacan afirma também que o Deus de Pascal, ao qual ele se refere, está ancorado no sujeito por pontos de reversão entre o significante e o objeto. Passando ao lado do significante nos encontramos ao lado do objeto, passando ao lado do objeto nos encontramos ao lado do significante. Não podemos melhor designar os momentos em que se produz o fading (desvanecimento) do sujeito, seja na surpresa trazida pelo significante, seja no corte em relação ao gozo, isto é no momento em que ocorre o desvanecimento, onde Lacan situa a incidência do registro do real.

Com certeza já lhes aconteceu, na experiência da análise, de ter que lidar com o corte na sessão associado ou não a uma interpretação do analista. Depois interroga-se o que aconteceu, o que motivou o corte. É nesse momento que o sujeito experimenta, ao mesmo tempo, o sujeito e o inconsciente: o ponto de reversão da superfície de um lado ao outro, onde para vocês, de fato, se encarna o que Lacan naquele momento chama de “desejo do Outro”, mas também “sujeito do inconsciente”, e também o resto da operação, o objeto pulsional. Sem dúvida, é necessário compreender que é muito mais a esse inconsciente puntiforme, a esse sujeito que se desvanesce que se faz referência. Muito mais do que a uma espécie de história da vida que incluiria em uma textura narrativa os elementos que o recalque apagou. Se é assim, estamos a mil léguas da prática da psicanálise como ela é feita nos Estados Unidos por alguém como Roy Schafer, o psicanalista americano para quem a experiência analítica é essencialmente fundada na construção de um romance individual, uma história da vida, prática que leva ao relativismo.

 

Nota

1.      N.R.: “Na mecânica quântica, a relação de indeterminação de Heisenberg ou princípio de incerteza de Heisenberg afirma que não é possível determinar, simultaneamente e com precisão arbitrária, certos pares de variáveis físicas, como, por exemplo, a posição e o momento linear (quantidade de movimento) de um objeto dado. Em outras palavra, quanto maior certeza se busca na determinação da posição de uma partícula, menos se conhece sua quantidade de movimento linear. Este princípio foi enunciado por Werner Heisenberg em 1927  

       (http://es.wikipedia.org/wiki/Relaci%C3%B3n_de_indeterminaci%C3%B3n_de_Heisenberg). 

2.    N.R.: “É o estudo e o conhecimento das técnicas e aplicações das nanotecnologias e está relacionada a diversas áreas do conhecimento humano (engenharia, física, química, biologia, eletrônica, computação, medicina). A nanociência e a nanotecnologia têm por meta a compreensão e o controle da matéria em escala nanométrica e o conhecimento da natureza na organização da matéria átomo por átomo, molécula por molécula. (“Nano" é um prefixo que vem do grego "nannós" que significa “excessiva pequenez”.). [...] O estudo para compreender as alterações drásticas que as propriedades dos materiais e elementos químicos apresentam em escala nanométrica é essencial para o aproveitamento das novas propriedades, possibilitando a cientistas reorganizar ou desenvolver moléculas e células inteligentes, construir novas estruturas e materiais, dispositivos tecnológicos com finalidades específicas, miniaturização dos dispositivos para economia de espaço e de energia, enfim um mundo que a nanociência quer desvendar” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nanoci%C3%AAncia).

 

Referências bibliográficas

 

Descartes, R. (2000) Discours de la méthode. Paris: Flammarion.

Gauhier, H. (2007) Blaise Pascal: conversão e apologética. São Paulo: Paulus e Discurso Editorial.

Hacking, I. (2001) An introduction to probability and indutive logique. Cambridge: Cambridge University Press, july 2001. ISBN-13: 9780521772877.

Lacan, J. (1975-76). Le Seminaire, livre 23: Le sinthome. Paris: Seuil, 2005.

_________. (1971-72) Le savoir du psychanalyste. Conférènce à Saînte-Anne. Inédito. Texto não publicado oficialmente (exemplares mimeografados).

_________. (1968-69) Le séminaire, livre XVI: d’un Autre à l’autre. Paris: Seuil, 2006.

_________.(1966) Écrits. Paris: Seuil.

_________.(1964-65) Le séminaire. Livre XII: les problemes cruciaux pour la psychanalyse French: unpublished.

_________.(1964) Le Séminaire. Livre XI: les quatre concepts fondammentaux de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1973.

_________. (1963) Des Noms-du-père. Paris: Seuil, 2005.

Pascal, B (1654). Memorial. Texto disponível nos seguintes sites: <http://www.users.csbsju.edu/~eknuth/pascal.html>, <http://www.bibleetnombres.online.fr/memorial.htm> <http://www.bibleetnombres.online.fr/memorial1.htm>, consultado em 04/2007.

Miller, J.-A (1996-97). El Otro que no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Paidós, 2005.

Miller, J.-A. et Laurent, E. (1997) L’Autre qui n’existe pas et ses comités d’étique – introduction. In: L’Autre qui n’existe pas. La cause freudienne n. 35. Paris: Diffusión Navarin Seuil, fev/1997, p. 7-14.

 

Texto recebido em: 03/04/2007.

Aprovado em:02/08/2007.