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Laboratório de Ensino


PRINCÍPIO DO PRAZER E PRINCÍPIO DA REALIDADE

Roberta Guimarães D'Assunção 
 

Os conceitos princípio de prazer e princípio de realidade foram mais finamente elaborados na obra freudiana em 1911, e designam dois princípios que regem o funcionamento do aparelho psíquico. O princípio de prazer é o propósito dominante dos processos inconscientes (processos primários), isto é, busca proporcionar prazer e evitar o desprazer. Evitar o desprazer significa afastar-se de qualquer evento que possa despertar desprazer, justamente o que caracteriza o recalque. Por outro lado, o princípio de realidade regula a busca pela satisfação levando em conta as condições impostas pelo mundo externo e, segundo Freud, vem substituir o princípio de prazer como uma proteção e não como uma deposição deste último.

A idéia da regulação prazer-desprazer está presente em Freud na concepção econômica de um aparelho psíquico regido pelo aumento (desprazer) ou pela diminuição (prazer) das quantidades de excitação, ou tensão. Justamente em A interpretação dos sonhos (1900) o conceito de princípio de prazer-desprazer é citado e primeiramente pensado como princípio do desprazer. Neste momento o conceito é apresentado no que se refere à articulação entre os processos conscientes e inconscientes:

Algumas reflexões importantes decorrem disso, se considerarmos as relações existentes entre a inibição de descarga efetuada pelo segundo sistema [consciente] e a regulação efetuada pelo princípio do desprazer (Freud, 1900, p. 638).

É justamente nesse texto de 1900 que Freud define inicialmente os "sentimentos" de prazer e desprazer. De acordo com essa hipótese, o sistema percepção-consciência recebe excitações oriundas do mundo externo e "excitações de prazer e desprazer, que mostram ser quase a única qualidade psíquica que se liga a transposições de energia no interior do aparelho. " (Freud, 1900, p.612) Logo, "as liberações de prazer e desprazer regulam automaticamente" (ibid) as transposições de energia do aparelho, isto é, o curso dos processos de investimento do aparelho. Portanto, nesse momento da obra freudiana, o prazer e o desprazer são as traduções qualitativas das modificações quantitativas no interior do aparelho psíquico.

No entanto, em 1915, Freud mostra-se insatisfeito com a correlação entre prazer e diminuição de tensão e entre desprazer e aumento de tensão, em função da falta de exatidão desta suposição. De fato, no texto As pulsões e seus destinos, encontramos a seguinte afirmação:

Preservaremos cuidadosamente, contudo, essa suposição em sua atual forma altamente indefinida, até conseguirmos, caso possível, descobrir que espécie de relação existe entre o prazer e o desprazer, por um lado, e flutuações nas quantidades de estímulo que afetam a vida mental, por outro. (Freud, 1915, p. 141)

O princípio de realidade, apesar de aparecer anteriormente nas formulações teóricas de Freud, é primeiramente enunciado, em Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911), como uma "evolução" do funcionamento psíquico. Mas em A interpretação dos sonhos (1900), Freud já aponta para uma dependência primitiva das liberações de prazer e desprazer, que é substituída a partir de um refinamento do funcionamento psíquico:

No entanto, a fim de tornar possível desempenhos mais delicadamente ajustados, posteriormente tornou-se necessário tornar o curso das idéias menos dependente da presença e da ausência de desprazer. (Freud, 1900, p.612)

No texto do Projeto para uma psicologia científica (1895) e também em A interpretação dos sonhos (1900), fala-se de uma perturbação do estado de repouso psíquico por exigências de necessidades internas, seguindo-se uma apresentação alucinatória de tudo o que havia sido pensado (desejado). Essa tentativa de satisfação por meio da alucinação é abandonada em função da própria ausência de satisfação, a partir do que o aparelho psíquico toma uma concepção das circunstâncias reais do mundo externo e empenha-se por efetuar nelas uma alteração real. Essa alteração real é primeiramente considerada no texto do Projeto, quando Freud fala de (...)certas condições, que precisam realizar-se no mundo externo (...), através de uma ação específica, de modo a cessar certos estímulos endógenos originados das grandes necessidades, que são a fome, a sexualidade, etc. (Freud, 1950 [1895], p. 397) É precisamente essa noção de um empenho em alterar as circunstâncias reais que constitui a base para a introdução de um novo princípio de funcionamento psíquico: o princípio de realidade.

A introdução do princípio de realidade produz transformações no ego; de um ego-prazer dominado pelo princípio de prazer-desprazer forma-se um ego-realidade. Tal como o ego-prazer nada pode fazer a não ser querer, trabalhar para produzir prazer e evitar o desprazer, assim o ego-realidade nada necessita fazer a não ser lutar pelo que é útil e resguardar-se contra danos. (Freud, 1911, p. 241) Enfim, o prazer momentâneo e incerto é abandonado por um prazer seguro, porém mais tardio. No entanto, como já foi assinalado inicialmente, o princípio de prazer não é suprimido, ou deposto. Se, por um lado, o princípio de realidade busca a satisfação no real, por outro, o princípio de prazer continua a reger a instância inconsciente, a qual funciona de acordo com as leis dos processos primários e apresenta uma outra realidade, isto é, as fantasias.

Nesse ponto, é importante enfatizar a dificuldade dos processos inconscientes concordarem com o teste de realidade e o que isso implica na compreensão dos fenômenos psíquicos. Em primeiro lugar, devemos entender que os processos inconscientes equiparam a realidade externa com a realidade do pensamento e os desejos com sua realização (sonhos com exemplo), o que dificulta a diferenciação entre fantasias inconscientes e lembranças inconscientes. Dessa forma, devemos atentar para a errônea aplicação de padrões de realidade a estruturas psíquicas recalcadas ou a equivocada idéia de menosprezar a importância das fantasias, por não serem reais, na formação dos sintomas.

Falamos, portanto, de realidade psíquica, ou seja, "de uma existência do sujeito que se distingue da realidade material, na medida em que é dominada pelo império da fantasia e do desejo. " (Roudinesco e Plon, 1998 [1944], p. 646) Em A interpretação dos sonhos, Freud realiza uma análise da realidade dos desejos inconscientes, ou melhor, procura elucidar a significação ética dos desejos recalcados. De acordo com ele, "se olharmos para os desejos inconscientes reduzidos à sua mais fundamental e verdadeira forma, teremos de concluir, fora de dúvida, que a realidade psíquica é uma forma especial de existência que não deve ser confundida com a realidade material. " (Freud, 1900, p. 658/659)

Considerando-se o ponto de vista dinâmico, em 1911, pode-se entender que os princípio de prazer e de realidade estão baseados nas pulsões sexuais e de auto-conservação. A introdução do princípio de realidade realiza-se ao nível da pulsão de auto-conservação. No caso das pulsões sexuais, que são auto-eróticas a princípio, há satisfação no próprio corpo e, portanto, elas não se frustram e não forçam a instituição do princípio de realidade. Dessa forma, pode-se verificar uma vinculação mais estreita entre a pulsão sexual e a fantasia por um lado e, por outro, entre a pulsão de auto-conservação e as atividades do ego. Em 1914, essa correlação torna-se ultrapassada a partir da consideração da pulsão como unicamente sexual e da introdução, com o narcisismo, dos conceitos de libido do ego e libido de objeto. Com a segunda tópica, verificamos que os dois princípios do funcionamento psíquico passam a não ocupar uma posição dialética, na medida em que o princípio de realidade, garantido pelo ego, atua no adiamento ou não da reivindicação da pulsão, tendo afinal objetivo semelhante ao do princípio de prazer: obter a satisfação exigida pelo aparelho.


Freud, S. - A interpretação dos sonhos [1900] in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980.Freud, S. - Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental [1911] in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

Freud, S. - As pulsões e seus destinos [1915] in Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980.Vocabulário de Psicanálise / Laplanche e Pontalis; sob a direção de Daniel Lagache; [tradução Pedro Tamen]. - 3a ed. - São Paulo: Martins Fontes, 1998.Dicionário de Psicanálise / Roudinesco e Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Coutinho Jorge. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud a Lacan / editado por Pierre Kaufmann; tradução, Vera Ribeiro, Maria Luiza X. de A. Borges; consultoria, Marco Antonio Coutinho Jorge. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

 

 

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