“Gente pobre”, escrito em 1846, é considerado o primeiro romance de Fiódor Dostoievski. É a coletânea de cartas escritas durante seis meses que retratam a vida amorosa entre um homem e uma mulher pobres. Segundo, sua tradutora, Fátima Bianch, com este livro Dostoievski reinaugura um gênero literário - a narrativa epistolar -, característico do século XVIII, que declinava na época. Interessou-se, também, em divulgar uma modalidade literária muito criticada naquele período: expor o sofrimento dos pobres, numa sociedade estratificada na Rússia do século XIX, onde a mobilidade social era, praticamente, vedada aos menos favorecidos.
As cartas retratam um suposto romance entre um homem e uma mulher pobres. E, nos permite, como um quebra-cabeça, construir a história de cada um. Makar Diévuchkin, pela descrição, deveria ter em torno de 45 anos, era funcionário público menor da cidade de Petersburgo e tinha como função transcrever os despachos e documentos em geral. A sua vizinha Varvara Alieksiêievna era uma jovem órfã, que trabalhava fazendo costuras e bordados. Ela, muito pobre, reclamava da sua pouca sorte, da dificuldade de ser bela e poder mudar seu destino. Ele, por sua vez, dizia estar velho e não ter dinheiro suficiente para pagar as joias e as roupas para merecida dama. Só poderia agradá-la com pequenos “mimos” ou enviar-lhe alguns rubros para que comprasse balas, vasos de flores e etc.
Entre o casal há uma ambiguidade de sentimentos e de interesses típicos de relações amorosas orientadas por ideais rígidos e exigências morais e econômicas da sociedade. Nos cabeçalhos, o tratamento é formal: ”prezado Senhor” ou “prezada Senhora”. No decorrer das cartas, eles usam expressões íntimas, tais como: “minha pombinha”, “minha filha”, “minha querida”, “sua Varvara” ou “amabilíssimo Makar”, entre outros. Makar e Varvara moram em pensões próximas, o que permite a ambos observar os movimentos um do outro. A luz do quarto ou a posição das cortinas identificam o horário em que dormem e acordam; o tempo de leitura e escrita, as roupas que usam e as visitas que recebem.
As cartas registram uma intimidade. Ela pede que ele lhe escreva sempre contando tudo sobre o seu dia a dia com o máximo de detalhes e fica lisonjeada com os presentes. Entretanto, repete: “Mais uma vez lhe imploro, que não gaste tanto dinheiro comigo. Sei que gosta de mim, mas o senhor mesmo não é rico...” (p. 18). E reclama da sua infelicidade: “Ah, o que vai ser de mim, qual será a minha sina? É duro viver nessa incerteza, sem ter um futuro, sem poder sequer prever o que há de acontecer comigo” (p. 18).
No romance, as cartas são escritas no período de abril a setembro. Observamos que não há uma regularidade no número de correspondências. Em alguns momentos são diárias, em outros, semanais. No mês de maio, Makar escreve apenas uma carta a Varvara. Supomos que ele a visitou e levou alimentos para ajuda-la a recuperar a saúde.
O leitor só conhecerá mais da vida da Varvara, na carta de 1º de junho. Lá, por saudosismo, ela relata a sua infância para Makar. “O paizinho era administrador de uma fazenda”, ele “estava sempre ocupado com o seu trabalho, a mãezinha se dedicava à lida da casa; não me ensinavam nada, e eu estava contente com isso” (p.33). Até os 12 anos, ela brincava livremente pelos campos e lagos sem preocupações, só conheceu a infelicidade quando a família foi obrigada a se mudar para Petersburgo. O pai foi demitido e foram morar num lugar feio, com poucos recursos e cheio de lama. Ele tornou-se carrancudo e nervoso; ela e a mãe ficavam quietas. Três meses depois, Varvara foi para o internato. Tinha de estudar! Tudo era difícil, não concordava em ter perdido o paraíso da infância. O despreparo da família levou os pais ao adoecimento e à morte. A partir de então, a filha ficou entregue à sorte, vivia de favores, paralisada e abnegada a espera de um milagre. “Ah, o que vai ser de mim, qual será a minha sina? É duro viver nessa incerteza, sem ter um futuro, sem poder sequer prever o que há de acontecer comigo” (p. 18).
Logo em seguida, através do personagem Makar, temos retratada a percepção dos homens entre si. Considerava que até os colegas eram impiedosos no julgamento a seu respeito. Tinha vergonha da sua condição, pois um homem pobre não gosta de despir-se diante do mundo. Ele mesmo dizia que não servia para nada, mas queria agradar e ser útil a Varvara. Traduziu seu sofrimento na comparação com o pudor da mulher. “Um homem pobre, nesse sentido, sente o mesmo pudor que você, para dar um exemplo, um pudor vaginal” (p.105). Makar se envergonhava de não ter dinheiro e ao mesmo tempo se endividava cada dia mais. Resolveu pedir dinheiro emprestado a um agiota, que o questionou: “Para que o senhor tem necessidade de dinheiro”? (p.121) Esta pergunta foi o golpe fatal. Sua situação precária o impediu até de obter empréstimo. Caiu na bebedeira, e vivenciou um tempo de desespero. As cartas de Makar transbordam descrição sobre os efeitos da pobreza para um homem.
Varvara retruca dizendo que “pobreza não é defeito. Então, por que se desespera: isso tudo é passageiro!” (p. 125) E denuncia que a sua vergonha é falsa. A precariedade financeira da mulher tem nuanças diferenciadas das do homem. A mulher se embeleza para si, para as outras mulheres e para os homens. E também, quer ter casa e filhos. Trabalhar, para Varvara, era algo “estranho”, queixa-se da pouca escolaridade e do despreparo para vida, ela só consegue desempenhar tarefas simples como bordar e fazer acabamentos para outras costureiras.
Makar, por muitas vezes, confessa ser um ‘bronco’, solitário e que só o amor por ela o faz sentir-se um homem. Para ele, o sofrimento de um homem por não ter dinheiro é torturante. Ser honesto e escrever bem não garantem prestígio e dinheiro. E declara que um homem sem dinheiro não tem direito de ter e amar uma mulher. Por isso, deve viver sozinho.
Um incidente no trabalho levou Makar a mudar a avaliação sobre si. A repartição estava agitada. Ele tinha cometido erro grave depois de longo período de trabalho para seu superior, o qual não conhecia. Ao copiar um documento importante, Makar tinha pulado uma linha e foi repreendido. Porém, seu superior conhecia seu trabalho e abrandou as recriminações ao ver o botão do paletó de Makar cair. Este sentiu vergonha de sua pobreza, e o superior, num gesto generoso, num aperto de mão, entregou-lhe uma boa quantia em dinheiro para que melhorasse sua condição de vida. Considerava que seus funcionários só poderiam ser responsáveis no trabalho se estivessem bem em sua vida particular. O comportamento do superior provocou em Makar uma alegria. Ele até questionou sua percepção de que era desprezado por outros homens; havia alguns gentis. Ele estava mais confiante e menos queixoso.
Simultaneamente, Varvara resolveu dar um jeito em sua vida: aceitou o pedido de casamento de um comerciante, pois ele tinha o suficiente para tranquilizá-la. Makar não se sentiu no direito de interferir. Assim, as correspondências terminam. Ela decidiu que entre os dois só poderia haver uma amizade “discreta”.
Enquanto autora desta resenha e como protagonista de uma pesquisa de doutorado1 que investiga os efeitos subjetivos da pobreza, rastreei no texto agudeza psicológica de Dostoievski para descrever a essência da condição humana – os amores, os dramas e as alegrias possíveis entre os pobres.
A trama psicológica dos dois personagens principais, Makar e Varvara, permite levantar os diferentes efeitos subjetivos desencadeados pela pobreza num homem e numa mulher. Ao dissertar sobre esse tema, Dostoiévski exemplificou extensamente o conceito psicanalítico de castração e mostrou a importância da diferença sexual na constituição da sociedade.
Nota
- A pesquisa vem sendo realizada no Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ com o financiamento da CAPES. Orientadora: Profa. Dra. Tania Coelho dos Santos.
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