Sintoma, traumatismo, repetição, identificação e laço social
Symptom, traumatism, repetition, identification and social bond
Symptôme, traumatisme,répétition, identification et lien social
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No momento de escrever o editorial de um novo numero aSEPHallus, sou sempre confrontada à questão de explicitar os aspectos que aproximam o conjunto de textos oferecido aos leitores. Algumas vezes essa tarefa é mais fácil. É o caso dos números especiais que agregam contribuições oriundas de um simpósio do ISEPOL na ANPEPP ou dos eventos do Campo Freudiano. Outras vezes, como é o caso deste número, o acaso determinou que fossem reunidos artigos de procedência a mais variada, enviados à nossa edição. O que foi que resultou desta aposta no acaso? Surpreendentemente, uma leitura do sumário e dos resumos sugere uma linha de discussão que perpassa as mais diferentes contribuições. Os temas clássicos da teoria da clínica psicanalítica - do sintoma, do traumatismo e da repetição pulsional - articulam-se ao tema da identificação e do laço social. Surgem na investigação da clínica psicanalítica strictu sensu, tanto quanto no campo da psicanálise aplicada nos projetos de pesquisa-intervenção junto a adolescentes. Comparece igualmente a pesquisa sobre os efeitos das redes sociais na internet. Ressurge em conexão com a clínica das toxicomanias. E finalmente, é o pano de fundo dos artigos que se dedicam a pensar os efeitos do trabalho analítico sob transferência, sobre o excesso pulsional: do supereu, do ato, da repetição e do traumatismo.
Flávia Lana Garcia de Oliveira refaz todo o longo caminho freudiano de elucidação da estrutura do sintoma, onde a identificação e o laço social consolidam-se para cada sujeito. Percorre a refundação por Lacan da estrutura do sintoma por meio da lógica do significante. E ilustra a prática interpretativa com o estudo das estruturas clínicas clássicas da psicanálise, revisitando os casos paradigmáticos da literatura freudiana. Destaco o artigo de Ana Maria Rudge e Fernanda Paes Furieri que aborda o tema da emergência da singularidade do sujeito por meio do trabalho analítico, pois ele se opõe à repetição alienante do traumatismo. Também Roberto Calazans e Juliana Marçal contrapõem o trabalho analítico de extração do objeto a, à falsa certeza alienante em jogo no ato, na clínica da urgência.
Segue-se a interrogação sobre a natureza do excesso pulsional em jogo no ato infracional. Aline Guimarães Bemfica aborda esta clínica do ponto de vista da orientação para a singularidade, destacando os princípios éticos da psicanálise aplicada ao tratamento de adolescentes em cumprimento de medida judicial. Rachel Amin Feres apresenta os resultados de sua pesquisa-intervenção com adolescentes, na Vara da Infância e Juventude de Teresópolis, no Rio de Janeiro com crianças e jovens que perderam precocemente um dos pais, por morte ou abandono, revelando que o traumatismo determina comportamentos de risco como atos infracionais e exposição a maus tratos.
O enigma da satisfação pulsional nas toxicomanias é um problema vivo e atual. Alexandra Gouvêa Vianna, trata do tema da toxicomania, destacando o valor operatório dos conceitos de supereu e pulsão de morte. Patrícia Mattos Rodrigues, por sua vez, incide sobre o tema da modalidade de satisfação pulsional em jogo nas toxicomanias, destacando que se trata de um anti-amor ao Outro.
Os efeitos das redes sociais, Facebook, Orkut e Twiter, instigam os psicanalistas. Nádia Laguárdia, Carla de Figueiredo e Silva Castro e Carolina Marra Mello, abordam o processo de identificação e a formação de grupos na adolescência e na contemporaneidade estudando as redes sociais. João Luiz Leitão Paravidini, Anamaria Silva Neves, Aline Accioly Sieiro, também se dedicam a pensar a constituição do sujeito, as identificações e as modalidades de laço social em nosso tempo, quando todo mundo parece estar on-line.
Kátia Kac Nigri se dedica a pensar a identificação e o laço social dos homens e das mulheres entre si. Ressalta que as faces de luxo e lixo do objeto causa de desejo são universais, mas as piadas servem para fazer laço entre os homens e não entre as mulheres. Também Valéria Wanda da Fonseca traz à discussão as relações entre homens e mulheres, resenhando os primeiro romance de Dostoiévski, intitulado Gente pobre.
Estas palavras-chave - traumatismo, repetição, identificação e laço social - surgiram por acaso e por encanto, no momento mesmo de concluir esta edição de nossa revista. Agradeço a todos os autores, mas, muito especialmente, àqueles que não fazem parte do Instituto Sephora de Ensino e Pesquisa de Orientação Lacaniana nem do Campo Freudiano e que vieram somar esforços conosco para sustentar a presença da psicanálise na universidade e na civilização.
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