Neste II SIMPÓSIO DO ISEPOL, vamos encarar a difícil questão: que emprego fazemos da distinção entre o normal e o patológico na nossa clínica de todos os dias? Como reconduzir um sujeito a arranjar sua fala num discurso cujo Real seja tratado como impossível? Como ensejar que o gozo do ser falante reconduza cada um ao significante Um que o determina no campo do gozo?
Como é do conhecimento de muitos de vocês, o sujeito sobre o qual a psicanálise opera só pode ser o sujeito da ciência. Parece um paradoxo? Talvez não. Se não fosse a distinção introduzida pela ciência entre o normal e o patológico, será que alguém chegaria aos nossos consultórios se queixando de que não vai bem? Dizendo que tem sintomas, que Freud explica, que são efeitos do inconsciente,? Distinguimos neuróticos, psicóticos com base na relação de cada um ao inconsciente. Neuróticos recalcam o desejo. Este, se refugia na fantasia inconsciente. Esta, por sua vez, é o fundamento da realidade psíquica. O desejo recalcado retorna para o sujeito como um sintoma enigmático. O desejo rejeitado pelos psicóticos, por sua vez, retorna sob a forma de delírios e alucinações, como se seus desejos lhe viesse de fora, como se não habitassem sua realidade psíquica, como se fossem da ordem do real.
Real e realidade, na psicanálise, são dimensões relativas à diferença entre a neurose e a psicose, ou à diferença entre uma formação do inconsciente – isto é, um sintoma normal - e delírio patológico. Quando perguntaram à Freud, qual a diferença entre o homem normal e alguém que concluiu uma análise, ele respondeu: nenhuma. O sintoma neurótico, na abordagem freudiana faz parte da psicopatologia da vida cotidiana. Faz companhia aos sonhos, lapsos e atos falhos. São os sinais de que os desejos infantis jamais se encontrarão completamente à vontade na civilização, na realidade social, na ordem simbólica. Esta última orienta-se pela racionalidade coletiva, enquanto que a primeira veicula o desejo infantil. Para Freud, portanto, o embate que se trava na neurose se dá entre o desamparo infantil e a ciência. E a psicanálise oferece a oportunidade de uma pós-educação, para que o infantil ineducável encontre uma solução de compromisso com as exigências da civilização, que seja melhor que o sintoma. Ou seja, que o indivíduo tenha a oportunidade de fazer uma sintoma normal.
A psicanálise participa de duas concepções do real, cuja fundamento, entretanto é único: o real é impossível. Uma parte de nossa atividade, a clínica psicanalítica, pode ser formalizada. Haverá, entretanto, em cada experiência, o encontro com uma singularidade irredutível, pois os efeitos de lalíngua sobre a diversidade dos corpos não podem ser completamente reduzidos às classificações que já conhecemos. Por esta razão, mais do que nunca, o analista no século XXI, precisa estar disposto a surpreender-se e se expor ao acaso de novos encontros.
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