Jacques-Alain Miller: É preciso que você consiga fazer com que compreendam o que há de radicalmente novo no que está acontecendo. Já faz algum tempo que os cognitivistas e os clínicos se engalfinham na universidade. Porque agora o seu manifesto “Salvemos a clínica”? Porque a mobilização de seus signatários? Porque você fala de uma luta “vital”, já que a partida começou há muito tempo?
Roland Gori: Sim, você tem razão, de certo modo a situação atual da psicopatologia e os seus conflitos com a “Nomenklatura” da psicologia podem aparecer como simples episódios da discórdia originária entre os dois segmentos da psicologia na universidade. Estes dois segmentos, a psicologia experimental e a psicologia clínica, negociam cada um ao seu modo, desde 1947, data da criação da licenciatura em psicologia, suas cotações na bolsa do mercado universitário. Até recentemente, esta partida, conduzia-se, de um lado para a psicologia dita científica, com os recursos de um método baseado nas ciências biológicas e, de outro, para a psicologia clínica, com os recursos da demanda social – de um lado, com as vantagens alcançadas pelos profissionais e, de outro, com o desejo dos estudantes que os levavam às questões clínicas. Logo, tínhamos uma espécie de acordo tácito entre os parceiros desses dois pólos da psicologia que Lagache localizava meio precipitadamente, uma, sob a insígnia do naturalismo e a outra, sob a bandeira do humanismo. Em meio a este jogo de cartas entre as correntes da psicologia, esquematicamente referidas para um às ciências do comportamento e para o outro às clínicas da intersubjetividade, as vantagens distribuíam-se mais ou menos ao sabor do momento, desde que as exigências sociais prevalecessem sobre as requisições científicas, ou vice-versa. E, de acordo com os momentos históricos, estes dois momentos tendiam mais ou menos à unidade centrípeta ou à secessão centrífuga. Mas, de modo geral, segundo o meu amigo Jean-Léon Beauvois, havia um acordo tácito para que os clínicos fornecessem um batalhão de estudantes efetivos e suscetíveis de pesar na atribuição dos postos universitários e, em troca, os experimentalistas conferissem à disciplina um selo de cientificidade que pudesse dotá-la com créditos de pesquisa e reconhecimento institucional, do tipo CNRS3.
Jacques-Alain Miller: Sim, era um equilíbrio frágil, e que não é mais que uma lembrança. Quando e porque ele se quebrou?
Roland Gori: Este equilíbrio frágil, é verdade, era ao mesmo tempo suficientemente consistente quando as pessoas e as instituições se respeitavam. Começou a romper-se no final dos anos 1980 quando alguns pesquisadores, alimentados pela “pensée - mammouth”4de Claude Allègre, tentaram padronizar o modelo francês da psicologia – em particular, a psicologia clínica e a psicologia social - alinhando-o ao modelo anglo-saxão. É preciso saber que, nos Estados Unidos, se a psicanálise constituiu uma referência considerável em psiquiatria, em contrapartida, ela quase nunca conseguiu infiltrar-se no campo da psicologia universitária americana, que se manteve sempre muito reticente. Muito pelo contrário, foi servindo-se da psicologia, em particular a psicologia diferencial, que a psiquiatria neo-kraepeliniana criou o famoso DSM III, cuja publicação e o status de autoridade em 1980 assinaram o atestado de óbito da psicopatologia clássica.
O DSM III nutriu-se inteiramente desta psicologia diferencial americana que, com a ajuda da análise fatorial, fabricou escalas de avaliação e de categorização de comportamentos. Esta nova psiquiatria americana mostra-se extremamente porosa aos olhos dos ideais da civilização e não tem nada de científica: eu tentei demonstrá-lo no La Santé totalitaire5. Mas, apoiando-se nos métodos tradicionais da psicologia, ela dirá operar objetivamente e cientificamente.
Portanto, nos Estados Unidos, a referência à psicanálise desmorona nos meios tradicionais da psiquiatria, sob os golpes da ditadura do DSM III e IV, servindo-se da psicologia experimental mais estéril, isto é, a psicologia diferencial. Todas as práticas psiquiátricas, psicopatológicas e psicológicas encontram-se então decompostas e recompostas. A partir deste momento, e cada vez mais, colocamos as práticas do tratamento psíquico sob o controle normatizado do modelo experimental, por um lado, e, por outro, tendemos a substituí-las por terapias químicas. O catálogo de transtornos do comportamento dos DSM fornece um verdadeiro mercado em expansão para as indústrias da saúde. A campanha atual sobre a depressão na França é um bom exemplo disso.
Nos Estados Unidos, este modelo animal veterinário da psicologia diferencial estrutura a psiquiatria e a psicopatologia. Como se necessita de um pouco de alma, acrescentamos as terapias psicológicas mais superficiais. Ressuscitamos até as velhas receitas do final do século XIX, repaginadas por um lifting com as técnicas mais modernas de gestão e de governança esportivo-gerencial das condutas. Estamos no “Império dos treinadores” no ponto em que “as terapias mais soft procuram desesperadamente as patologias flexíveis”.
Estendi-me um pouco neste ponto, mas é preciso compreender bem o seguinte: quando os nossos experts atuais pedem para nos submetermos aos critérios internacionais, quer dizer, aqueles dos Estados Unidos e do modelo anglo-saxão em geral, eles nos convidam pura e simplesmente a desaparecer. Quando eles são rígidos e falam em nome desses dispositivos de propaganda e de retórica publicitária que são as diferentes pesquisas de avaliação (por exemplo, do INSERM6 no campo da saúde mental), eles nos dizem que não somos científicos e que somos ao mesmo tempo perigosos e ineficazes: não estamos muito longe disso. Quando são light, eles nos dizem: “A psicanálise? Tudo bem, contanto que ela se misture com outra coisa”: um pouco de hipnose, um pouco de análise transacional, uma pitada de terapia familiar, muita TCC e uma grande dose de psicotrópicos. Quer dizer, eles nos pedem para subverter a psicanálise em nome da psicologia clínica integrativa - o que é a melhor maneira de desintegrá-la. Serban Ionescu7 revelou-se como grande referência na França, onde foi um dos principais responsáveis pelas análises dos laboratórios de psicologia na MSPT.
Logo, veja, o que mudou fundamentalmente, a cartas estão marcadas: em nome do modelo anglo-saxão, nossos parceiros de jogo nos dizem pura e simplesmente que querem continuar a jogar conosco na condição de que sejam eles a anunciar a cor dos trunfos.
Jacques-Alain Miller: Ah! Muito bem. Você explicou muito bem o que mudou na partida que se joga na Universidade entre os clínicos e os cognitivistas. Os cognitivistas, que foram até agora seus rivais, mas que funcionavam na realidade como seus parceiros, se dobraram, se tornaram seus adversários declarados, e mais, ocuparam o lugar do árbitro.
Roland Gori: A medicalização da psicopatologia estraga a psiquiatria e a psicologia clínica em nome da “saúde mental”, o que é um modo de fazê-los voltar ao âmago da higiene, da qual a psiquiatria descende. A “saúde mental” é a psiquiatria temperada ao gosto da saúde pública e da epidemiologia. Novamente, eu acredito, mantemos o mesmo combate, já que a redução do sujeito trágico, sujeito dividido, a um “homem comportamental”, segundo nossa amiga Elisabeth Roudinesco, constitui pura e simplesmente o pretexto ideológico permitindo que a medicina e certa psicologia participem da nova governança das condutas.
Simplesmente, no sentido de compreender melhor o que está acontecendo, a psicopatologia também deve ser reconhecida, segundo as afirmações de Michel Foucault, como “um fato de civilização”. É o trabalho que tentei fazer com Marie-José Del Volgo em Les exilés de l’intime8. Os operadores e os dispositivos que fabricam as supostas novas práticas profissionais de tratamento e as teorias que as regulam, são menos a causa de um novo estado da cultura que um sintoma de seus modos de subjetivação. Por outro lado, esses operadores psicopatológicos recompõem as nossas sensibilidades psicológicas e sociais. Portanto, em uma palavra como em cem, esses dispositivos de análise dos comportamentos e suas avaliações “ao quadrado” através de outros sistemas de análise, são provenientes de um nicho ecológico, o da nossa civilização, hoje em dia civilização neoliberal que está sendo reconstruída.
Logo, sublinha-se de bom grado que a opinião encontra-se recomposta e fabricada pelas retóricas, propagandas e publicidades enganosas das supostas análises científicas. Mas é porque essa opinião já está preparada a acolhê-los em função dos ideais de sua civilização. Esta tese é objeto do nosso trabalho com Marie José Del Volgo. Os nossos adversários surfam nas ondas das ideologias que predispõem a nossa civilização a acolher cada vez mais, em nome da ciência, um modelo cognitivo instrumental cumprindo uma prescrição social. Portanto, veja você, eu compreendo o termo ideologia no sentido próprio marxista, definindo um modo de conhecimento que pretende ter uma descrição supostamente científica da realidade, mas que se revela como um discurso de controle social e de regulação normativa dos atos e das práticas.
Já ouvi diversas vezes universitários dizerem que as atuais avaliações das formações e publicações são talvez lastimáveis, mas que não tínhamos escolha por se tratar de uma realidade internacional. A realidade globalizada é evidentemente a do mercado, dos seus efeitos de veridicidade e de construções imaginárias que permitem à economia funcionar. Mais do que nunca, precisamos ler Freud e Lacan com Marx.
Eis por que nossos adversários hoje em dia mais do que antes têm uma vantagem ideológica considerável sobre nós, o que lhes permite aproximar cada vez mais a psicologia da Prefeitura afastando-a do Panteão. Bastam alguns homens e alguns dispositivos para que o resto seja feito.
Os psicólogos clínicos encurralados
Jacques-Alain Miller: Eu não vejo em que a inspiração do trio Monteil–Lécuyer–Fayol seria liberal. Eles são animados por uma ideologia avaliacionista, gerencial e niveladora, compartilhada com a maioria dos peritos do partido socialista e com a revista Esprit. O PS é da oposição, mas suas idéias estão no poder. O que há de pior em sua ideologia inspira os nossos governantes. O engodo da história é que um ministério de direita esgota-se ao realizar uma política de esquerda – enfim, de esquerda... o que a esquerda tornou-se: “um grande cadáver às avessas”, segundo BHL. Essa esquerda está nas mãos dos “sociomaníacos” estigmatizado por Sollers.
Roland Gori: O que eu vejo, caro Jacques-Alain, é que a minha resposta não te entusiasma. Porém, era preciso criar adequadamente o cenário antes de encenar a história e mostrar os personagens. Eu não localizei à esquerda ou à direita os locais de implantação dessa ideologia neoliberal de um “homem econômico” como dizia Marcel Mauss, “empresário de si mesmo”, estrategista calculador e racional treinado para pilotar a própria vida e os seus atos fornecendo uma série de indicadores produzidos por todo tipo de medidas mais ou menos grotescas. Portanto, se você concordar, não vamos mais consentir com a babaquice humana: ela não tem limites.
Em seguida, você me fala de um trio que atualmente prejudicaria os ensinos e as pesquisas de psicopatologia e de psicanálise na Universidade. Sim, talvez, mas de que nicho ecológico o poder deles brotou? Trata-se de esclarecer isto.
Esses colegas são certamente de esquerda, mas à maneira de Claude Allègre9, eles têm uma concepção gerencial, contábil e científica das disciplinas universitárias. Deste ponto de vista, eles são fundamentalmente antiliberais. Eu penso, sobretudo, que os avaliadores atuais terão brevemente algumas dificuldades, quando a nova autonomia das Universidades conduzi-los a escolher as ofertas de formação que o mercado oferece. O poder não está longe disso: de um lado, homogeneizamos, padronizamos, normatizamos, terceirizamos; de outro, exaltamos a concorrência, a competição, o desempenho e o darwinismo social. Eu não quero abusar da paciência dos leitores do LNA10, mas é claro para mim que as ideologias neoliberais também são as patrocinadoras das práticas antiliberais. Deixemos isso de lado, porque este é outro problema.
Jacques-Alain Miller: Deixemos, de acordo, mas será preciso retomá-lo outra vez. Você sabe que eu convoquei em novembro passado um “Fórum Extraordinário” contra os abusos da quantificação. O que você pensa do todo quantificado ou do empuxo a quantificação?
Roland Gori: Estamos assistindo a um verdadeiro frenesi do todo quantificado. Ele se opõe ponto a ponto à avaliação dos pares, que pedem os universitários. Com a nova língua da avaliação, medimos tudo e qualquer coisa. Um sindicato inglês de pesquisa e de ensino superior recentemente promoveu uma enquete demonstrando que 80% dos pesquisadores desaprovavam os indicadores bibliométricos que os burocratas lhes impunham. Além disso, são nas disciplinas científicas mais prestigiosas que encontramos a ponta de lança da contestação dos critérios bibliométricos.
No domínio, das letras e das ciências humanas, todos aqueles que querem mimetizar o modelo das ciências exatas realizam os seus malfeitos em nome da necessária avaliação. Novamente, ignoramos magnificamente que nos Estados Unidos o sistema universitário é certamente competitivo, porém, mais complexo e com várias etapas. Essas Universidades, as então chamadas de Liberal Arts, que se aproximam dos nossos setores universitários de letras e ciências humanas, são mantidas por doações provenientes dos benefícios entregues pelas fieiras profissionais e científicas. Novamente, a pretensa adequação ao modelo anglo-saxão é mais ideológica do que real. Ela permite aos burocratas dar golpes decisivos nas disciplinas e nas correntes de que não gostam.
Portanto, que os Estados Unidos sejam líderes no domínio da psicologia e da psicopatologia cognitivo-comportamentais, é incontestável. Devemos do mesmo modo destruir os modelos que são seus concorrentes e onde nós somos performáticos? É o que me parece ridículo hoje em dia. Num outro domínio, equivaleria a abater os Airbus porque eles não se assemelham suficientemente aos Boeing!
No que se refere aos dispositivos de avaliação, eles são fundamentalmente centralizadores, normatizadores. São certamente pertinentes em certos setores, mas ridículos em outros.
Jacques-Alain Miller: Porque existe hoje em dia na França um perigo vital para a psicanálise na Universidade?
Roland Gori: Simplesmente porque os psicólogos clínicos estão presos em uma máquina cujas engrenagens podem esmagá-los. Há de um lado a Direção de Ensino Superior (DES), que habilita as formações que dão diplomas. Há de outro lado as Agências de avaliação da pesquisa que habilitam estes laboratórios. Finalmente, há o CNU que qualifica os professores e os mestres conferencistas. Para se qualificar como psicólogo clínico é preciso ter a titularidade de Mestrado em psicologia. Para poder expedir os graus de Mestre em psicologia é preciso que as equipes de pesquisa sejam reconhecidas como laboratórios aprovados e que as suas formações sejam propostas pela Universidade e legitimadas pelo DES. Se não for o caso para certas equipes de psicopatologia clínica, elas não poderão mais expedir os graus de Mestre, recrutar colegas – e os seus doutorandos estarão em dificuldades dado que não pertencerão mais a formações ou a equipes autorizadas. O círculo estará fechado.
Jacques-Alain Miller: Você poderia descrever o que está acontecendo atualmente?
Roland Gori: Começaram por destruir os laboratórios. Foi o caso em Montpellier, em Toulouse, em Bordeaux, etc. Ou melhor, os colocaram em apuros, como foi o caso em Paris XIII, em Lyon, em Rennes, em Poitiers, etc. Eles são forçados a mais ou menos perder suas especificidades ao integrarem equipes de dominância cognitivo-comportamental. Subitamente, ao nível dos mestrados propostos para formar futuros clínicos, diminuiu-se consideravelmente a parte formal psicopatológica e clínica da formação dos estudantes. O que evidentemente permite um recrutamento ainda mais escasso dos universitários clínicos em benefício de outras abordagens. E pela lei dos números, as comissões de especialistas recrutam colegas com base em critérios ideologicamente contrários à abordagem clínica, aumentando a espiral infernal que nos conduz ao desaparecimento. Temos ainda, esta figura impressionante em que o número de universitários clínicos recrutados ficou inversamente proporcional ao grande número da demanda estudantil que busca na universidade os ensinos de psicanálise e a formação de psicopatologia.
As coisas se agravaram muito nesses últimos meses. Para roubar empregos e formação dos psicanalistas, deixaram florescer orientações “descontroladas”, do estilo neuropsicologia clínica, psicologia desenvolvimentista clínica, etc. Em suma, desqualifica-se o significante clínico para apoderar-se dos locais de ensino e de pesquisa instituídos por eles.
Melhor ainda: a reforma LMD, promovida por Jean Marc Monteil, permitiu na transição minorar o valor dos antigos diplomas profissionais especializados em psicologia clínica em benefício de vários Mestrados aplicativos de modelos não clínicos no setor da saúde: handicap, psicologia da saúde, etc.
Finalmente, completando o percurso, uma portaria decidiu que todo titular de Mestrado qualquer que seja ele, pode ser qualificado como clínico. Isto é um golpe de mestre porque permite recrutar em nome do significante “saúde” ou “handicap” psicólogos em promoção, que não possuem a formação necessária à clínica. Recebemos várias correspondências de psiquiatras inquietando-se ao verem recrutar psicólogos que não têm a formação clínica e psicopatológica dos nossos titulares de Mestrado e que ocupam os raros cargos disponíveis em psiquiatria. A meu ver, esta política de infiltração e de colonização já está muito avançada.
As coisas chegaram ao ponto que o SIUEERPP11, reunido em AG em Rennes no dia 2 de dezembro passado, votou por unanimidade uma moção de protesto a esse respeito. Por razões tanto éticas como epistemológicas, contestamos a validade das últimas avaliações efetuadas, bem como os critérios que foram aplicados até então e solicitamos com urgência que reuniões sejam rapidamente organizadas pelas autoridades de fiscalização para garantir a transparência destas análises, estabelecer-lhes critérios adequados e assegurar-se da nomeação de peritos verdadeiramente representativos da pluralidade da disciplina.
O trio
Jacques-Alain Miller: Eu aprendo muito te escutando. Para terminar, você poderia ainda assim, me dizer uma palavra sobre o papel das pessoas que eu citei como: MM. Monteil, Lécuyer e Fayol?
Roland Gori: Bom, eu vou superar o meu embaraço e as minhas inibições. Devo reconhecer que você é bem informado. Depois de ter sido presidente da Universidade de Clermont Ferrand, vice-presidente da Conferência dos Presidentes, reitor em Bordeaux, depois em Aix en Provence,
Jean-Marc Monteil foi nomeado diretor da DES, depois presidente da AERES12. Hoje em dia é encarregado de missão junto ao Primeiro Ministro. É um colega, brilhante, inteligente, um workaholic, profundo conhecedor de seus processos. Reconheço nele apenas um defeito: ele não gosta da clínica e menos ainda da Psicanálise.
Na DES, ele teve como conselheiro para os assuntos das “ciências humanas e sociais” o meu amigo Jean-Paul Caverni, psicólogo cognitivista renomado, mas atento à biodiversidade das espécies teóricas e muito preocupado com as exigências da reflexão ética e cidadã. No CCNE (Comitê Consultivo Nacional Ético), ele soube impulsionar debates éticos e epistemológicos entre nós. Caverni foi presidente da Universidade de Aix-Marseille I: sua profunda honestidade, seu humanismo, seu interesse pela clínica e pela psicanálise nos permitiu seguir dentro de um ambiente hostil. Desde o início de 2007, ele deixou a presidência e um professor de Paris 5 o substituiu, Roger Lécuyer. A coisa aí muda de figura. Roger Lécuyer foi um artesão decisivo da Lei de 1985 sobre o uso do título de psicólogo. Esta Lei tem certamente qualidades, reivindicadas pelos sindicatos profissionais, mas ela apresenta um defeito presunçoso: definir o acesso a um título do qual não se define nem as práticas que autoriza, nem as funções e menos ainda o estatuto, que ele supõe. Foi nesta lei que o Ministério da Saúde se inspirou quando tentou elaborar o decreto de aplicação da lei fixando o acesso ao título de psicoterapeuta. Nesta lei que protege o título de psicólogo, favoreceu-se o menor denominador comum de competência. Subitamente, reduz-se a formação dos clínicos aos cinco anos de estudos acadêmicos e se desqualifica de fato as experiências clínicas, as formações complementares, analíticas e psicopatológicas, que os profissionais de saúde tendiam tradicionalmente a adquirir como complemento de sua formação acadêmica.
Roger Lécuyer, que não é um colega “malvado”, preside atualmente a FFPP (Federação Francesa dos Psicólogos e da Psicologia). No meu modo de ver, isto evidencia um conflito de interesse maior: Lécuyer é ao mesmo tempo o Grande Chefe dos dispositivos de habilitação e o Presidente de uma das associações mais partidárias e preocupadas em normatizar nossas formações de psicologia ao menor denominador comum e ao mesmo tempo uma das menos representativas no meio profissional.
A Federação tem a característica de ser um pouco fantasma. Além disso, ela perdeu uma boa parte de seus apoios mais poderosos, o Sindicato Nacional dos Psicólogos, a Associação da Escola Católica dos clínicos de Paris. Logo, essa associação não representativa é, no entanto, a única a beneficiar-se do reconhecimento europeu, a única que distribuirá a certificação européia EuroPsy às nossas formações em psicologia, a única habilitada a reconhecer as qualificações profissionais dos futuros profissionais da saúde, a única a validar os currículos da formação. Em que ele apoiou-se para conseguir essa OPA sobre o EuroPsy? É concebível que este monopólio se mantenha?
No ano passado, Roger Lécuyer fez uma turnê pelas universidades francesas na tentativa de convencer seus Presidentes a instituir uma seleção de estudantes ao nível do primeiro ano de Mestrado, o que seria praticamente recrutar os nossos futuros estudantes com base em critérios externos à clínica, dado que a origem comum em psicologia favorece, sobretudo, as outras abordagens – cognitiva, diferencial, desenvolvimentista, neurociência, etc. Acrescente a isso que Lécuyer é conselheiro da DES e tem um poder considerável na designação dos membros nomeados pela DES no CNU: você pode compreender por que – esta é, pelo menos, uma hipótese – este ano nenhum clínico foi nomeado no CNU, Conselho Nacional das Universidades. O CNU sempre se mostrou até o presente momento, mais tolerante e aberto que os outros aos diversos dispositivos de avaliação. Vamos ver como as coisas vão acontecer nas próximas sessões de qualificação.
Acrescente a isso Michel Fayol na direção da AERES, e você não terá nenhuma dificuldade em compreender porque o grupo encarregado de avaliar todos os laboratórios em curso de reabilitação não compreende nenhum clínico de nossa orientação, à exceção de Rassial.
Jacques-Alain Miller: Há até pouco tempo, eu nunca tinha ouvido falar de Michel Fayol, aliás, nem da AERES, mas ele entrou em contato comigo a respeito do departamento de psicanálise de Paris VIII. Ai eu comecei a entender.
Roland Gori: Esperemos os resultados das próximas “visitas” de avaliação no local, vamos ver qual será a composição destas comissões, sabemos ao menos quem tem o poder de anunciar os valores. Portanto, você compreenderá facilmente, meu caro Jacques Alain Miller, porque me sinto obrigado a sair de minha concha. Demais, é demais. É uma antiga lei histórica: o que começa pelo cômico, pelo grotesco, termina em tragédia. E já estamos quase lá. O dispositivo de avaliação e de qualificação generalizada das nossas formações e de nossas pesquisas parece ter se tornado quase totalitário.
Traduzido por: Kátia Danemberg.
Revisado por: Catarina Coelho dos Santos. |
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Notas
1. Publicado originalmente na revista Le Nouvel Âne n. 8, Paris: forumpsy.org, février 2008, p. 40-42.
2. Roland Gori é psicólogo e psicanalista, doutor pela Sorbonne, professor de Psicopatologia Clínica da Université d’Aix-Marseille 1, diretor do Centre Inter-Régional de Recherches en Psychopathologie Clinique, diretor de publicação da revista Cliniques méditerranéennes: Psychanalyse et psychopathologie freudiennes, presidente do Groupe Méditerranéene d’Etudes Freudiennes, autor de numerosos artigos publicados na França, Itália, Alemanha, Espanha, Portugal e Brasil e dos livros Le corps et le signe dans l’acte de parole (Paris: Dunod, 1978), A prova pela fala. Sobre a causalidade em psicanálise (São Paulo: Escuta, 1998), A lógica das paixões (Rio de Janeiro: Ed. Cia. De Freud, 2004), L'empire des coachs, une nouvelle forme de contrôle social (em co-autoria com Pierre Le Coz; Paris: Albin Michel, 2006).
3. CNRS: Centre national de la recherche scientifique
4. Nota da tradução: a expressão significa “pensamento mamute” e escolhemos não traduzir, pois não acrescentaria nada ao sentido do texto.
5. Roland Gori, Marie-José Del Volgo, La Santé totalitaire: Essai sur la médicalisation de l'existence. Paris: Denoël, 2005.
6. INSERM: Instituto nacional pour la santé, ensino e pesquisas médicas.
7. Serban Ionescu (1950-), ator romeno.
8. Roland Gori, Marie-José Del Volgo. Exilés de l'intime: la médecine et la psychiatrie au service du nouvel ordre économique. Paris: Denoël, 2008.
9. Claude Jean Allègre (Paris, 31 de março de 1937) é um geoquímico e político francês.
10. LNA: journal Le Nouvel Âne, editado por Jacques-Alain Miller. Paris: Navarin.
11. SIUEERPP: Séminaire Inter-Universitaire Européen d'Enseignement et de Recherche en Psychopathologie et Psychanalyse.
12. AERES: Agência de Avaliação da Pesquisa e do Ensino superior (Agence d’Évaluation de La Recherche et de l’Enseignement supérieur).
Recebido em: 15/03/2008
Aprovado em: 21/06/2008
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