Segundo a mais moderna classificação do mal-estar já não é preciso supor qualquer estrutura. Não se trata mais de distinguir neurose e psicose. Ainda menos de perguntar acerca da estrutura psíquica que subjaz os sintomas fóbicos, histéricos ou obsessivos. É sobre a superfície do fenômeno empírico que nosso olhar deve incidir, descrevendo e classificando aquilo que se dá a ver. Nada mais distante da perspectiva psicanalítica - herdeira da rica tradição psiquiátrica – onde prevalecia a lógica do sintoma e sua estrutura íntima, pois se podia reconhecer o caso particular de um certo universal, sem desconhecer sua surpreendente singularidade. Será que somos menos pragmáticos do que aqueles que se curvam às evidências empíricas, cuidadosamente classificadas e descritas no DSM IV? Será que acreditamos demais na racionalidade científica e nos negamos a constatar que entre o real e o fenômeno contingente não existe nenhuma articulação íntima?
Neste numero de aSEPHallus, recolhemos alguns textos para sublinhar a fineza da pragmática psicanalítica, como ensina Jacques-Alain Miller em seu Curso intitulado Choses de finesse (2008-9): ”Um caso particular não é uma regra, não é um exemplar de um universal, não é a exemplificação do geral. A pragmática é precisamente a disciplina que tenta encontrar a regra a partir de um caso particular quer dizer, que toma, no fundo, sempre, o caso particular como exceção à regra”. Para dar testemunho dessa orientação trazemos a tradução de sua conferência pronunciada em Buenos Aires, em 1993. Sem pretender resumi-la, diríamos que Miller demonstra a oposição entre a lógica do tratamento do pequeno Hans e a estrutura do discurso no Seminário IV, de Lacan. É um excelente exemplo de uma lógica elástica como a topologia, suficientemente flexível para acompanhar as produções fantasmáticas do pequeno Hans e formalizar as diferentes etapas de sua investigação. É também uma forma de escrever a estrutura do discurso analítico. A primeira forma proposta por Lacan da estrutura do discurso se encontra no esquema L, que ele relembra ao começar seu seminário sobre A relação de objeto. O esquema em forma de Z seria uma outra forma, igualmente estática ou sincrônica, que Lacan deu à estrutura do discurso. No Seminário IV, Lacan teria introduzido uma formalização dinâmica, diacrônica e inacabada não só de escrever as coordenadas fundamentais do tratamento, mas também de formalizar o que é dito no tratamento, o transitório do que é dito, o que se passa, o que acontece, não só a estrutura. Para formalizar os eventos do dito no tratamento, a noção central com a qual Lacan trabalha é a da estrutura com suas transformações.
Também baseado no caso Hans, primeiramente abordado por Lacan em 1956-57 e depois em 1969 e em 1975, Geert Hoonaert interroga qual é o objeto cuja localização varia com a estrutura e cuja possibilidade de cessão determina a natureza da ligação ao corpo e ao Outro. Que estofo tem ele, qual é seu modo de existência? O autor submete aos leitores duas hipóteses. Primeiramente, este objeto não é um dado a priori, deve ser construído pelo sujeito. Em segundo lugar, a extração é, de certa forma, apenas esta construção.
Ainda sobre as virtudes da estrutura na clínica psicanalítica, o artigo de Vitor Hugo Couto Triska e Marta Regina de Leão D’Agord realiza uma leitura do Seminário De um Outro ao outro (1968-69) de Jacques Lacan, destacando o método lógico-matemático que ali é utilizado. Quer demonstrar que o uso desse método é um recurso para a explicitação da inconsistência do universo do discurso, isto é, o ponto onde o saber não sabe de si mesmo. Através das noções de falha e falta são abordadas as conseqüências dessa utilização da lógica. A primeira se refere ao campo da lógica, a segunda, à estrutura. Um dos resultados deste trabalho é mostrar que o projeto lacaniano de fazer da psicanálise uma ciência acolhe a falha fundamental na lógica, falha essa que revela a inconsistência do universo do discurso.
Fabiana Mendes Pinheiro de Souza traz à discussão a estrutura de borda do inconsciente - que se abre e se fecha - o que o torna homogêneo a uma zona erógena. Ela recorda que, a partir do Seminário 11, o inconsciente estruturado pela linguagem passa a ser menos importante que o inconsciente pulsional. O que não significa desvencilhar a experiência do real da estrutura do sintoma. A ciência que conhecemos começou com Descartes, o sujeito da ciência é o sujeito do cogito. O sujeito da psicanálise é o sujeito cartesiano, o sujeito que condiciona a ciência. Logo, o ser é uma dedução do pensamento e não um puro fenômeno empírico.
O artigo de Ana Carolina Duarte Lopes vem diferenciar a fobia da perversão, na qualidade de posições subjetivas decorrentes da percepção da castração materna, através da construção lacaniana sobre o significante falo em suas vertentes positiva e negativa. De um lado, a fobia surgiria como um apelo ao Pai - ou seja, a busca de um ordenador simbólico, a metaforização, da falta. Por outro, na perversão haveria a negação da lei que limita o gozo, reduzindo o objeto sexual à categoria de fetiche.
Sabrina Gomes Camargo constata que, na experiência clínica, o obsessivo mostra-se avesso às mudanças. Diferentemente da histérica que gosta de inovação, o obsessivo com sua ordem e método vive seu dia-a-dia de forma padronizada e ritualística. Ela conta que, certa vez, ouviu de uma paciente que as novidades, as mudanças que surgem em sua vida precisam se tornar suas velhas conhecidas para só assim poder se adaptar e viver bem. Quando o novo, o inesperado surge, o obsessivo se vê de mãos atadas, sem saber o que fazer com isso e consigo mesmo. Costume, rotina, hábito, repetição são estas as palavras que melhor definem um obsessivo, que procura abolir o próprio passado, resiste ao presente e amedronta-se ante ao futuro.
A questão da estrutura em jogo na experiência analítica é relevante para que Paola Salinas possa afirmar sobre um caso clínico: embora os sintomas possam ser contemporâneos - obesidade e bulimia, por exemplo - trata-se de uma histérica clássica que, além de questionar o desejo, é tomada pelo mais-de-gozar presentificado na compulsão. Para a pulsão fazer seu percurso e retornar ao ponto de partida auto-erótico, serve-se do Outro onde procurará, para se satisfazer, aquilo do que se faz ver, escutar, devorar ou defecar enquanto objetos da pulsão. Ou seja, a pulsão encontra então os semblantes necessários ao sustento de seu auto-erotismo no campo do Outro, os artifícios sociais, a cultura e a língua. Trata-se de uma histérica que paga com o seu corpo pelo lugar de objeto de satisfação da mãe, identificada a esse objeto, exemplo de novo sintoma dentro de uma estrutura clássica, onde a obesidade se articula ao Édipo e se coloca como sintomática.
Esse também é o tema da cuidadosa revisão dos textos freudianos, efetuada por Flávio Fernandes Fontes, Cynthia Pereira de Medeiros, Suely Alencar de Holanda , Aline Borba Maia e André Luís Leite Figueiredo Sales. Buscaram evidenciar como a idéia de conflito psíquico surge a partir da clínica da histeria, ressaltando o caráter de novidade da experiência analítica. Em seguida, abordam a definição de conflito psíquico na teoria psicanalítica, o seu papel na origem dos sintomas neuróticos, sua importância no trabalho terapêutico e sua relação com o fim de uma análise. O caso Dora é discutido, e é feita uma análise detalhada de como o conflito se encontra presente em sua história, nas suas relações interpessoais e na sua dinâmica psíquica. Na conclusão, é enfatizada a atualidade desse estudo dos fundamentos do conceito de conflito psíquico para a formação dos analistas contemporâneos.
Para além do diagnóstico estrutural os pesquisadores - Andreza Rocha, Claúdia Rosa Riolfi, Enio Sugiyama Junior, Patricia Furlan Maluf Germano e Maria Helena Barbosa Bogochvol - se perguntam acerca da maneira pela qual uma pessoa pode se responsabilizar pelo encontro com o acaso na civilização globalizada. Por meio da análise da história de uma mãe e de seu filho, mostram como se instaura o que denominam Efeito Fátima, a saber, o estabelecimento de um estatuto ético ao corpo como resultado de um modo singular de interpretar as contingências da vida. A posição feminina estrutural, de não fazer conjunto, explica a solução que ela inventou para sua vida. Ela escolheu aumentar a carga de sua responsabilidade pessoal, evitando que seu filho se posicionasse como uma frágil vítima de um destino trágico.
Flávia Lana Garcia de Oliveira mostra a importância do programa de iniciação científica para a formação do pesquisador em psicanálise. Seu texto é uma revisão bibliográfica sobre o sintoma em Freud. Percorre das publicações pré-psicanalíticas às elaborações metapsicológicas que formalizam a primeira tópica. Freud e Breuer apresentam um estudo clínico com pacientes histéricos onde discorrem sobre os processos mentais que formam os sintomas, as circunstâncias psíquicas e contingenciais que favoreceriam sua formação e como a intervenção hipno-catártica poderia ser eficaz para sua eliminação. Nos diversos artigos que compõem as primeiras publicações psicanalíticas verificamos que, além da histeria, as sintomatologias das neuroses obsessiva, fóbica e de angústia orientam Freud na elucidação destes quadros clínicos. Essa revisão lhe permitiu descortinar a identidade postulada por Freud entre sintomas, sonhos, atos falhos e chistes, tendo como referência o inconsciente. Todos são, por um lado, caminhos de acesso ao inconsciente e, por outro, expressão do recalque, uma vez que só podem irromper na consciência mediante certas transformações e ligações associativas.
Para concluir, trazemos a pergunta que Jean-Claude Maleval levanta sobre a atualidade da clínica: qual é a diferença entre um psiquiatra, um psicanalista, um psicólogo e um terapeuta? As pesquisas demonstram que a maior parte dos demandantes confundem as diferentes categorias de psis. Os próprios profissionais apresentam, com cada vez mais freqüência, dificuldades quando se trata de traçar balizadores precisos entre suas práticas. Existem atualmente duas grandes maneiras de apreender o campo psi: compreendê-lo a partir das técnicas utilizadas, tentando contê-lo numa teoria de influência, ou caracterizá-lo a partir dos usuários, como o local a endereçar a demanda de psicoterapia. Mais do que nunca é preciso insistir na pesquisa, no ensino e na transmissão dos princípios da experiência psicanalítica.
Agradecemos a todos os autores que colaboraram conosco neste número e convidamos nossos leitores a enviarem seus artigos inéditos.
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