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 A respeito da neurose obsessiva feminina

 

 

Serge Cottet
Doutorado de Estado pelo Département de Psychanalyse/Paris VIII
Professor e orientador do 3éme. Cycle do Département de Psychanalyse/Paris VIII
Responsável pela Seção Clínica do Hospital de Gennevilliers
Analista Mestre da Escola na École de La Cause Freudienne
Paris - França

scottet@freesurf.com.fr

 

Resumo

É verdade que pegamos o hábito de falar da histeria no feminino e da neurose obsessiva no masculino. Poderíamos pensar, ao contrário, que uma clínica estrutural transcende os gêneros. Lacan raramente faz objeção a esta dissimetria, mesmo assinalando que “o histérico não é obrigatoriamente mulher e o neurótico obsessivo não é obrigatoriamente homem” Existe uma especificidade da neurose obsessiva feminina que a atualidade faz reaparecer? A partir do momento em que Freud faz da neurose obsessiva um dialeto da histeria, devemos poder colocar em função da história de uma neurose feminina, sintomas obsessivos tais como rituais, defesas, obsessões, em momentos cruciais da história da neurose em uma mulher.


Palavras-chave: neurose obsessiva, neurose obsessiva feminina, sintomas obsessivos contemporâneos, diagnóstico, tratamento

 

   
 

 

about the feminine obsessive neurosis

Abstract

It is true that we have the habit of talking about hysteria in the feminine and of the obsessive neurosis in the masculine. We could think as opposed that a structural clinic transcends gender. Lacan rarely objects this dissymmetry even marking that “the hysterical is not necessarily a woman and the neurotic is not necessarily a man.” Is there is a specificity of the female obsessive neurosis that the present time makes it reappearing? From the moment when Freud makes the obsessive neurosis a dialect of hysteria we should be able to put in history of a feminine neurosis symptoms like rituals, defenses, obsessions, in crucial times of the history of a woman’s neurosis.

Key words: psychoanalytical crises, female obsessive neurosis, contemporary obsessive symptoms, diagnosis, treatment.

 


Este título parece considerar que um tipo clínico pode ser descrito a partir da divisão entre masculino e feminino. Poderíamos pensar, ao contrário, que uma clínica estrutural transcende os gêneros. É verdade que pegamos o hábito de falar da histeria no feminino e da neurose obsessiva no masculino. Lacan raramente faz objeção a esta dissimetria, mesmo assinalando que “o histérico não é obrigatoriamente mulher e o neurótico obsessivo não é obrigatoriamente homem” (1968-69, p. 386). Dora permanece o paradigma da histeria e o Homem dos ratos, o do obsessivo. Nada disso impede que Sócrates seja considerado histérico, não somente devido a seus sintomas, mas também devido ao questionamento do mestre. Existe uma especificidade da neurose obsessiva feminina que a atualidade faz reaparecer? A clínica dos TOCs estimula uma reflexão contemporânea sobre a obsessão.

 

Problemas de diagnóstico

Uma primeira observação diz respeito aos sintomas obsessivos (ou considerados como tal) que podem ser observados em sujeitos femininos, mas que não comprovam a estrutura. É o caso dos mecanismos de defesa e de ritualização descritos por Anna Freud em Le moi et les mécanismes de défense (1936) ou segundo as premissas da Ego psychology, ou, então, nos exercícios de interpretação das defesas de Otto Fenichel (1953).

Não basta a mania de arrumação, nem de arrumar a cama perfeitamente todas as manhãs, ou de organizar meticulosamente sua biblioteca para ser obsessivo. É quando se teme que os livros mal arrumados caiam na cabeça de alguém próximo que algo vai mal (inclusive porque o risco aumenta ao arrumar). Também não é suficiente que haja uma clivagem entre o objeto de amor e o objeto de desejo numa mulher para que faça parte do tipo clínico em questão. Freud tornou célebre o rebaixamento do sujeito como condição para o desejo no homem, mas este rebaixamento não sofre discriminação na repartição entre os sexos, a prova é que existe um rebaixamento histérico. Karen Horney (1922-37) descreveu muito bem esta antítese da estrutura e do sintoma em “A feminilidade inibida”, que é um clássico da clínica. Sintomas como a idéia fixa em sujeitos femininos, descritos por Janet, atravessam todas as estruturas clínicas e devem ser opostos à estrutura da obsessão, que implica em um pensamento e uma verbalização muito precisos, em formações reativas, etc. (o vimos com o Homem dos ratos). É o fato de não distinguir essa estrutura significante com o comportamento ritualizado que explica o sucesso dos TOC, entidade trans-clínica e, mais exatamente, trans-estrutural, que pode designar tanto um sujeito esquizofrênico, quanto um autista, quanto um neurótico.

Na literatura analítica clássica, uma questão diagnóstica se coloca concernindo à melancolia e à obsessão. É o caso de uma jovem paciente de Abraham com um ritual para dormir: toda noite ela se vestia impecavelmente arrumada como se esperasse a morte. Sua identificação com o pai morto não afastava a melancolia (Abraham, 1965, p. 16-122). O doente de Daniel Lagache, em seu “Deuil pathologique” (1965), realiza um suicídio melancólico no exato momento em que o tratamento se direcionava para a elucidação de um luto impossível de fazer: o de seu filho, morto por acidente na casa de uma mulher que não o queria lá, pois achava que ele atrapalhava e demonstrava seu ódio de diversas maneiras.

Esta superposição de uma estrutura qualquer e um sintoma obsessivo se verifica também na psicose. Um caso de Hanna Segal (1974), comentado há pouco na seção clínica, dava a ilustração da suplência pela dúvida de uma estrutura paranóica em um homem. O sujeito passava duas horas por dia tentando resolver um dilema: deveria ele tomar um banho de banheira ou digitar na máquina de escrever? Uma mulher, notoriamente paranóica, descreve um ritual imutável no momento do aperitivo: pistaches e amendoins sempre antes das nozes ou nada.

Vale lembrarmos do comentário sobre o Retrato do artista, de Joyce, feito por Jacques-Alain Miller (1977, p. 16); o ego de Joyce, construído “como um retrato”, dá forma a um imaginário de segurança, é um eu obsessivo. Se ficarmos atentos à ideologia da personalidade na qual “se construir” se torna o trabalho de uma vida, percebemos que o sintoma tem um belo futuro pela frente. Nossa teoria da psicose não se opõe ao fato de que um sintoma obsessivo possa permitir a estabilização de uma psicose ordinária. Vimos, no CPCT, um indivíduo sem documentos, instalado na ambivalência entre a identificação com um pai idealizado e a rejeição das insígnias de sucesso social, se revelar um megalomaníaco delirante.

Lembremos ainda que o episódio obsessivo da neurose infantil do Homem dos lobos, de Freud, deve ser reconsiderado à luz de sua crise paranóica de 1926. Isto é, são o sentido e a função do sintoma que determinam sua estrutura e não a observação de um comportamento. Existe um mundo entre a defesa contra impulsos sádicos ou perversos, em um ritual de conjuração, e bater com a cabeça na parede dez vezes ao dia para resistir a um impulso suicida.

Lacan nos apontou esta distinção entre o sentido e a estrutura em seu “Introduction à l’édition allemande d’un premier volumes des Écrits” (2001), particularmente no caso da neurose obsessiva, pois afirma que um caso de neurose obsessiva não ensina nada sobre outro do mesmo tipo. Isto para dizer a que ponto o sentido e a função do sintoma não seriam, a priori, legíveis a partir de padrões e parâmetros que, de hábito, se ligam à obsessão. É um assunto importante, pois serve para saber se devemos dar ocasião ao sujeito de superar suas defesas, derrubá-las, como se diz, para fazer advir um desejo recalcado, ou se, ao contrário, as estabilizamos e até mesmo encorajamos, na medida em que elas fazem objeção, como no caso de uma dúvida permanente, a uma passagem ao ato.

 

O sintoma no feminino em Freud

Não é que faltem na clínica freudiana, os exemplos de sintomas obsessivos. Entretanto, eles são mais comumente implantados na histeria como a própria estrutura da neurose. A partir do momento em que Freud faz da neurose obsessiva um dialeto da histeria, devemos poder colocar em função da história de uma neurose feminina, sintomas obsessivos tais como rituais, defesas, obsessões, em momentos cruciais da história da neurose em uma mulher. É o caso do exemplo escolhido por Freud em suas Conférences d’introduction à la psychanalyse (1916-17 [1915-17], p. 329-348), o caso da “mulher dos tapetes”, que foi comentado por Esthela Solano-Suarez (1993).

Ainda nos lembramos deste ritual vaudevilesco, por meio do qual uma mulher frustrada por um marido impotente, repete, incansavelmente, diante de sua arrumadeira, uma cena que desmente a falha das relações sexuais durante a noite de núpcias: a prova é uma mancha vermelha no tapete, simples deslocamento dos sinais da defloração, que uma “ausência eterna de leito”, como diria Mallarmé, não pode mais fornecer. Nos dois casos, Freud recorre a um clichê que demonstra que as perturbações de caráter e as manias de arrumação procedem de uma frustração pela qual o homem é responsável no casal. O esquema parece ser o das neuroses ditas atuais, distinguidas por Freud das psiconeuroses em torno de 1895. Esthela Solano recolocou o eixo deste caso na função do olhar do Outro, notadamente o da Outra mulher, para acentuar o fantasma irrelevante do homem.

Entretanto, os exemplos deste tipo estão longe da análise de uma neurose infantil e de seus avatares na vida adulta, como é o caso da neurose do Homem dos ratos. Em 1913, Freud descreve um caso pelo qual se interessou em 1911, como o testemunha uma carta a Ferenczi (1914-19, p. 263). Nestes casos, os sintomas obsessivos descritos são imputados a uma regressão da libido a uma etapa do desenvolvimento da sexualidade. A percepção não é, de forma alguma, estrutural. É questão de uma mulher frustrada das alegrias da maternidade em razão de uma esterilidade do marido. As relações sexuais se fazem mais raras, a mulher desidealiza o marido. Ela se abstém de relações sexuais e sua libido regride ao estado sádico-anal isolado por Freud em seguida ao artigo de Jung: “Haine et érotisme anal” (1973).

Freud ressalta, sobretudo, o fato de que os sintomas obsessivos apareçam tardiamente durante o casamento. A neurose é precedida de um trauma, seguido de uma histeria de angústia. Freud questiona, neste caso, sua tese segundo a qual a neurose obsessiva é um dialeto da histeria, isto é, um documento escrito em duas línguas distintas, mas de conteúdo idêntico. No presente caso, a neurose obsessiva é uma segunda experiência que desvaloriza completamente a primeira, no lugar de ser uma reação nova ao trauma da histeria. Aqui também é a impotência do marido que dá início à série de sintomas. Uma esterilidade do marido a priva de filhos, o que reativa sua insatisfação; as relações conjugais se deterioram, o homem que já é estéril se torna impotente; a vida sexual regride pela desvalorização da vida genital a um estágio anterior: a organização dita sádico-anal.

Na época, Freud fazia questão de trazer à luz a existência de pulsões parciais, isto é, um modo de gozo que exclui o genital. Resulta deste mecanismo uma neurose de caráter que Freud imputa a uma frustração de gozo sem grande originalidade, em vista dos clichês sobre mulheres briguentas, mesquinhas, fofoqueiras e problemáticas. Apenas o traço de avareza aponta uma relação ao objeto correlacionado com o erotismo sádico-anal. Entretanto, é a reação a esta pulsão, isto é, sua recusa que, sob a forma de dúvida e de formação reativa, é o osso da neurose: encontramos o conflito entre a hiper-moralidade do lado da defesa do amor de objeto e o ódio dele. Freud trata, então, em termos de desenvolvimento de estágios e de regressão, uma posição subjetiva que era, até então, articulada de uma maneira mais estrutural, a saber, a partir de significantes religiosos. É o caso, notadamente, no artigo fundamental “Actions compulsionelles et exercices religieux”, que contém numerosos exemplos de rituais femininos todos relativos ao impossível da relação sexual (Freud, 1907, p. 137). Parece que no período de 1907 a 1914 muitas observações surgem sobre os sintomas femininos, como testemunham as cartas a Jung. Entretanto, sua descrição continua fragmentária e não atinge o paradigma do Homem dos ratos.

É o momento de aprofundar as afinidades da neurose feminina com a religião. Um caso de Hélène Deutsch dá a idéia disso. É uma professora de escola católica que, “no momento de sua análise, tinha tentado fugir do mundo, tornando-se noviça em um convento” (1970, p. 105). Ela parecia apresentar um quadro de estupor catatônico. De fato, seu corpo não podia ser tocado por medo de ser sujado pelo contato de outro. Um grave delírio do toque gera uma série de rituais de conjuração, de anulação, de inibição, de interdição, muito característico da defesa obsessiva contra rituais onanísticos e sádicos.

H. Deutsch desdobra as características em uso nos anos trinta relativas ao desenvolvimento da libido, à regressão sádico-anal e à autopunição. Entre o onanismo e as pulsões assassinas ordena-se toda uma gama de sintomas pela severidade implacável do superego. As tendências destrutivas da pessoa sofrem a inversão característica dos avatares do sentimento de culpa: o masoquismo interior e as tendências ascéticas superam o sadismo exterior. Recorrer a um vocabulário emprestado do energético em termos de conflito de forças não traz, entretanto, nada de feminino.

É verdade que alguns anos mais tarde, H. Deutsch verá no masoquismo uma característica da libido feminina, um ponto de vista muito controverso, além do fato de que a culpabilidade e as pulsões pré-genitais deixam muito pouco espaço para o inconsciente. É o inconveniente de uma teoria dos estágios da libido. O gozo pulsional oculta toda referência ao desejo, termo maior na decifração da obsessão no Seminário V, de Lacan (1957-58, cap. XXIII). A equivalência do erro sexual e da contaminação faz certamente parte da sintomatologia obsessiva nas crianças. Na paciente, a origem da obsessão remonta ao episódio de jogos sexuais com o irmão, morto, desde então, de sífilis; a paciente, criança, se atribui responsabilidade: “seus dedos sujos, contaminados pelo onanismo, contaminariam o mundo inteiro com a sífilis” (Deutsch, 1970, p. 111), uma extrapolação que autoriza todas as especulações sobre o que Lacan condensou no matema Φ0.

Mais convincente em relação à especificidade feminina é o final deste tratamento com resultado terapêutico mínimo. A paciente toma as rédeas. Ela se livra de seu sentimento de culpa graças à religião: “Une sublimation réussie [...]. Prières et pénitences devenaient le substitut pour les rites obsessionnels apparemment absurdes” (Ibid, p. 113). Será a pobreza da doutrina da feminilidade que explica este resultado ou a gravidade do caso que, fora do discurso, só acha solução no laço social à igreja?

Temos dificuldade em acreditar que uma tal sintomatologia seja produto do recalque. Em todo caso, um ódio tão grande da sexualidade e uma tal intensidade na necessidade de expiação restam impossíveis de tratar pela psicanálise. O caso é uma incitação a unir, mais ainda, a afinidade do gozo feminino com o Nome de Deus; mas, sabemos que é mais a experiência mística que convida a isto (Lacan, 1972-73).

Lacan mostrará, nos anos 55-60, a insuficiência de uma teoria da fixação e do desenvolvimento, em sua crítica dos conceitos de ambivalência e de agressividade pré-edipiana, que alguns promoverão, incessantemente, depois de Melanie Klein, nos anos cinqüenta. Lacan vai ao contrário desta orientação. Como, para a histeria, é o schéma L (Lacan, 1966, p. 904) que vai servir de quadro conceitual à decifração do desejo obsessivo, pois coloca em função a estratégia do sujeito em relação ao Outro: não sustentar o desejo, mas visar sua destruição e sua anulação. Nos anos 1957-58, Lacan precisará esta função do grande Outro na neurose obsessiva feminina (1957-58, p. 388)

 

O caso de M. Bouvet

É a partir do artigo de Bouvet (1950) que Lacan elaborou o essencial de sua reflexão sobre a obsessão feminina. A decifração deste caso, se faz primeiramente no Seminário V, e mais especialmente no capítulo XXV do Seminário V, “La fonction du phallus dans la cure”, em seguida, Lacan retorna ao assunto no Seminário VIII, tratando agora de manejo da transferência (1960-61, p. 290-303). De fato, qualquer correlação entre um tipo neurótico e a feminilidade passa, necessariamente, pelo complexo de castração e a dissimetria que ele induz na menina em relação ao menino. Para Bouvet, é a inveja do pênis que parece fazer apelo à neurose obsessiva.

O sujeito em questão é uma mulher de cinqüenta anos, casada e mãe de dois filhos. Os sintomas da paciente colocam claramente em evidência um tipo de agressividade especialmente obsessivo, caracterizado por obsessões de tema religioso, que têm um ar compulsivo, isto é, que se impõem a ela de maneira incoercível em contradição formal com suas convicções. É a hiper-moralidade e a luta contra tendências perversas, que caracterizam a neurose obsessiva, conforme a definição de Freud: “a moral se desenvolve às custas das perversões, que ela reprime” (1906-1908). Por esta razão, as obsessões sozinhas não caracterizam a neurose obsessiva: é necessário o conflito moral.

Esta mulher é cativa de pensamentos que assediam a alma, “desarmônicos quanto à alma”, segundo a fórmula de “Télévision” (1973, p. 512). A lista das obsessões: pavor obsessivo de ter contraído sífilis, obsessões infanticidas que motivam a interdição do casamento de seu filho mais velho.

Estas obsessões começaram com seu casamento e, foram se agravando à medida em que ela começou a procurar diminuir suas possibilidades de gravidez. Mas, com apenas sete anos, a menina era parasitada pela idéia de envenenar seus familiares; como resposta a isto, ela tinha que dar três batidas no chão e repetir três vezes: “eu não pensei nisso”. Na puberdade, ela desenvolve a obsessão de estrangular seu pai e jogar alfinetes na cama dos pais para espetar a mãe.

Nesta época a paciente tem vergonha de seu pai e vivencia, dolorosamente, a educação religiosa imposta pela mãe. São, sobretudo, obsessões de tema religioso que interessam a Lacan, notadamente, frases injuriosas ou escatológicas, blasfêmias e pensamentos sacrílegos. Ela insulta tanto Deus quanto a Virgem e, adiciona: “Eu odeio a imposição de onde quer que ela venha, seja de um homem ou de uma mulher. As injúrias que eu direciono à Virgem Maria, com certeza, já as pensei a respeito de minha mãe” (Bouvet, 1950, p. 51).

Lacan retém especialmente uma imagem imposta: a imagem dos órgãos genitais masculinos no lugar da hóstia. O medo da danação que se seguiria, dá às suas defesas este aspecto de “armadura de ferro-velho” comparável àquela que é assinalada por Lacan à respeito do Homem dos ratos (1959-60, p. 239).

As coordenadas edipianas da paciente não dão inteiramente conta da intensidade de suas obsessões, nem da ambivalência em relação à mãe, nem das recriminações direcionadas ao pai em razão da submissão deste último à sua mulher. Notamos, sobretudo, a transferência desta agressividade para a pessoa do analista. “Sonhei que esmagava a pontapés a cabeça do Cristo, e esta cabeça parecia-se com a sua” (Bouvet, 1950, p. 58). Através de associações, ela entrega a seguinte lembrança: “Eu passo, todas as manhãs, a caminho do trabalho, diante de uma funerária onde estão expostos quatro Cristos. Ao olhar para eles, tenho a sensação de andar sobre seus pênis. Sinto um prazer agudo e angústia” (Ibid., p. 58). Todas as insígnias da potência de um homem são objeto de agressivo rebaixamento. A menina ataca os pênis: por um lado, como o que ela não tem, e por outro, como símbolo da potência que lhe falta, para assegurar sua independência em relação ao desejo de sua mãe. Esta última, a tiranizou por toda a sua vida.

Bouvet resume este fantasma à oposição kleiniana da agressividade oral. Por exemplo, a respeito de um sonho em que seus próprios seios são transformados em pênis: “não está ela a reportar sobre o pênis do homem, a agressividade oral dirigida, primitivamente, contra o seio materno?” (Ibid, p. 55). Entretanto, a observação põe muito pouco em relevo a pulsão oral, salvo em dois pontos correlacionados à palavra: primeiramente, ela se cala em análise; em seguida, ela sonha estrangular seu pai. Lacan se aplicará a distinguir esta onipotência da palavra como objeto parcial, seio ou pênis (1962-63, p. 311). No mesmo contexto, Lacan desqualifica uma análise fundada no ter e na frustração, opondo o ser do sujeito e suas identificações.

A regressão ao pré-genital não explica nada: a afirmação pela paciente da onipotência do falo é completamente correlacionada à sua insurreição contra o saber suposto do analista. Ela o faz calar-se. A intolerância ao significante do Outro, notadamente à vontade materna, mascara um ódio do pai que não tem nada de pré-genital. Bouvet acredita ler nesses afetos transferenciais, como num livro aberto, o que foi a relação da paciente com seu pai. Entretanto, é a intolerância à interpretação e à transferência negativa que estão no cerne da observação.

A análise de Bouvet somente repousa sobre o imaginário da inveja do pênis e da castração masculina. Todavia, este clichê não discrimina em nada quanto à questão da escolha da neurose. Ao invés disso, Lacan faz girar a cura, não em torno da inveja do pênis e do desejo de um homem, mas sobre o desejo da mãe e do falo como significante do desejo. Na infância, a pessoa foi objeto do desejo da mãe: numerosas cenas descrevem sua dependência ao mesmo tempo vital e passional. O que ela destrói é esta dependência da imagem fálica desejada pela mãe. De fato, ela rivaliza, não com o pai nem com a mãe, mas com um desejo do falo, mais além dela mesma. Lacan aplica a lei geral do desejo obsessivo: “destruir os sinais do desejo do Outro”; neste caso, é ela mesma que ela destrói, no sentido em que está identificada com estes signos. “É a ti mesmo que estás destruindo; é isso que seria necessário lhe fazer reconhecer” (Lacan, 1957-58, p. 454)

O problema então, não é ter este falo, é sê-lo. Assim, ela está em rivalidade com seu marido, na medida em que seu marido é o falo. Na época, Lacan maneja a dialética do ser e do ter e do desejo de reconhecimento, dialética esta, que vale tanto para o homem quanto para a mulher. De fato, o neurótico, em geral, quer sê-lo, é o caso da paciente.

Na provocação que ela manifesta em relação aos homens, ao vestir-se de forma sexy, ao fetichizar seu corpo, notadamente com os sapatos de salto alto cujo preço concorre com o das seções, ela é o falo. Lacan se refere à análise do espetáculo de máscaras descrito por Joan Rivière (1964, p. 261). Uma variante da fuga assimilada a uma coqueteria caracteriza uma paciente que vela diante dos homens sua traição e sua agressão imaginária:

Ela procurava sobretudo, ao assumir a máscara da inocência, assegurar sua impunidade. Era verdadeiramente uma anulação obsessiva de sua proeza intelectual, os dois aspectos formando a ‘dupla ação’ de seu ato obsessivo, sua vida inteira tendo sido uma alternância de atividades masculinas e femininas (Rivière, 1964, p. 261).

Joan Rivière torna assim compatíveis, um semblante de sedução com a denegação de um fantasma de onipotência fálica.

A paciente de Bouvet também se apresenta como “tendo o que ela sabe exatamente não ter” (Lacan, 1957-58, p. 453). Neste caso, é o ódio ao homem e a destruição das insígnias de potência que estão em primeiro plano, é possível que o termo destruição, tão freqüentemente utilizado por Bouvet, tenha sido utilizado pela própria paciente.

De fato, há duas máscaras: numa ela é o falo, fetichizando seu corpo para enganar o desejo masculino, esquivando-se, a outra que nega que ela tem o falo, numa concorrência rivalitária, roubado por meio do contrabando, numa agressiva provocação. Esta última destrói a imagem fálica por meio de uma desvalorização obscena: ela apaga o próprio apagamento da coisa através desta crueldade. Este apagamento duplo dos rastros é a tradução que Lacan dá para o Ungeschehenmachen de Freud (tradução literal: fazer com que não tenha ocorrido). Este modo de apagamento, é do que trata a lição de 14 de março de 1962 em “Le Séminaire, livre IX: L’identification”. É necessário ainda dizer que o afeto do ódio por si só não discrimina quanto ao tipo clínico. Aliás, a passagem de um teatro de máscaras agressivo ao outro é sempre possível na história do sujeito, como testemunha a história amorosa das adolescentes.(Cottet, 2006, p. 67-75). Faremos a mesma observação em relação à identificação ao falo, que vale para a neurose em geral e não para a neurose obsessiva em particular; é a estratégia em relação ao desejo do Outro que é determinante.

A neurose obsessiva se caracteriza pelo desvanecimento e a afânise do desejo, porque, ao destruir o desejo do Outro, é o próprio desejo que o sujeito atinge. Dado que Lacan faz tudo se relacionar ao ser, em detrimento de um imaginário da possessão, a estratégia de Bouvet lhe parece incoerente. Bouvet dá à sua paciente o falo que, de fato, lhe falta como uma mãe bem-intencionada. Ela responde a este presente enviando-lhe seu próprio filho à análise. Esta generosidade reduz a angústia, enquanto os sintomas não regridem.

O interesse da observação de Bouvet, reside no fato de que ele acredita fundar uma especificidade na neurose obsessiva feminina; o pré-genital e a inveja do pênis são grandes estrelas na época. Lacan acredita ser mais fundamental a relação com a palavra e, notadamente, o status do verbo e do reservatório de significantes que é o Cristo-rei. É esta onipotência que é objeto da destruição.

 

O pequeno phi da blasfêmia.

Obviamente, a estrutura significante do gozo está em primeiro plano na observação. Podemos comparar os intervalos significantes a um buraco, um espaço aberto que encontramos na fobia. É a presença real do gozo. O significante religioso enquadra a utilização obscena da palavra. Na missa, a paciente de Bouvet ouve “abram seus corações” ao que ela adiciona: “abra seu ânus”.

É essa degradação do falo, designado por phi minúsculo (j), que Lacan formalizará quatro anos mais tarde em seu Seminário VIII através da escrita: A◊j (a, a’, a’’, a’’’...) (Lacan, 1960-61, p. 299). A fórmula convém ao rebaixamento do falo simbólico na paciente: ela se oferece à demanda obscena do Outro, conservando-se todavia fechada ao amor: o significante da falta no Outro é trazido à pulsão anal, como encarnação exatamente da demanda.

Aliás, esse rebaixamento do objeto dá seu acento de perversão à obsessão. Podemos ler sob este ângulo os romances eróticos de Georges Bataille, que acumulam as cenas de degradação do objeto feminino entre missa negra e sacrilégio. Em Minha mãe e Madame Edwarda fica revelada notadamente a equivalência do sexo exposto e de Deus. Mas é, sobretudo em História do olho, que encontramos o maior número de analogias com a obsessão da paciente. Bataille se compraz nos cenários de profanação da hóstia: “justamente, continuou o inglês, estas hóstias que vês são o esperma do Cristo em forma de bolinhos.” (BAtaille, 1928, p. 112)

Uma nota biográfica fornece uma das chaves do romance: Bataille conta a degradação real de seu pai cego e doente. As palavras obscenas do pai delirante, misturadas às cenas de decadência, sofrem uma conversão erotizada, formando um nó de gozo transgressivo sobre um fundo de teologia.

Nos absteremos aqui dos debates sobre o mistério da transubstanciação, que eram muito conhecidos por Bataille e também por Lacan, a saber, que a hóstia seja, de fato, o corpo real do Cristo e não seu símbolo; pão e vinho se convertem em carne do Cristo: discussões infinitas resultaram disso após o concílio de Latrão em 1215, em seguida no Concílio de Trento em 1551. Os Cristãos do Oriente e os Ortodoxos inquietaram-se com este “metabolismo”, e em seguida, também os Protestantes. A paciente fez eco disso, em sua religião particular. Será que o excremento pode ser assimilado a uma parte do corpo de Cristo? (as especulações do Homem dos lobos sobre o traseiro do Cristo atualizam estas polêmicas).

Resta, que a vestimenta perversa do fantasma no obsessivo favorece uma freqüência maior da obsessão sexual no homem, pois ele é o sexo frágil com relação à perversão. Em Freud, é a assimetria do complexo de castração, o recalque da sexualidade em uma, o supereu no outro, o trauma da sedução passiva na menina, oposto à atividade sexual precoce do menino. A paciente de Bouvet, justamente apresenta uma exceção: quando era uma criança pequena, ela teve uma atividade sexual precoce com meninas, um esquema “ativo” muito mais determinante do que os traumas anteriores.

Podemos também aventar outras razões: a partir do Seminário XVI: D’un autre à l’autre, Lacan introduz a variável do saber, sua relação com o gozo e sua assimetria nos dois sexos: não estamos mais na dialética do desejo do Outro que resume uma passagem de “Subversion du sujet et dialectique du désir...” (Lacan, 1960, p. 813-814). Os dois termos do fantasma são implodidos.(Ibid, p. 824) É certo que Lacan põe a mulher do lado da insatisfação e da intriga infundada. Ocorre que encontramos o mesmo binômio no Seminário XVI, mas articulado nos termos dos quatro discursos: particularmente S1 e S2 como termos do saber.(1968-69, p. 335). Em resposta aos impasses do gozo, o obsessivo negocia um tratado com o Outro, excluindo-se como mestre (contrariamente ao que acreditamos). Sua relação com o saber permanece marcada pela interdição. Ele só se autoriza a tê-lo, mediante um pagamento sempre renovado. É a dívida interminável. A forma histérica está no espectro oposto e se encontra mais especialmente nas mulheres, justamente, pois ela não se toma por A Mulher. Esta definição da mulher como uma “dentre outras”, será a grande inovação do Seminário XX; a mulher não existe como A; seu gozo não é totalmente barrado pelo Um fálico.

A operação matemática que “subtrai o a ao Um absoluto do Outro” projeta a relação sexual rumo a um ponto infinito. O argumento matemático é difícil; ele especula sobre a seqüência Fibonacci (Lacan, 1968-69, p. 335-336).Lacan ainda não avança ainda a hipótese do gozo suplementar, mas já não se contenta com os clichês clássicos sobre o recalque de seu desejo. É muito mais o caso de que a histérica “promova o ponto infinito do gozo como absoluto”. O que é uma razão para que ela “recuse qualquer outro” (Ibid., p. 335).

Em contraste, a estratégia obsessiva tem a estrutura repetitiva do batimento anulação-restituição que coloca mais o pequeno a em série. Poderíamos, para simplificar, procurar um enlace especificamente obsessivo de RSI, teríamos então, como especificidade do real, o osso de um gozo impossível de atingir e contra o qual o sujeito se protege como numa fortaleza de Vauban. Para o simbólico, é a inflamação do grande Outro e do mestre. O obsessivo não quer se tomar por mestre, mas “supõe que o mestre saiba o que ele quer saber” (Lacan, 1968-69, p. 385). E ele o anula perpetuamente. Para o imaginário, a fortaleza narcísica do obsessivo coincide com sua mortificação: assim, ele está na procrastinação.

Quanto ao objeto a, Lacan retém menos as características do objeto anal, que aquelas do olhar e da pulsão de “se exibir”, onde se concentra a oblatividade obsessiva: mostrar uma imagem de si mesmo. Os diferentes seminários acentuam respectivamente o eu, o significante, o objeto olhar. O caso de Bouvet seria paradigmático nesse sentido.

Para retornar aos exemplos, podemos achar o quadro clínico precedente muito restritivo de tão marcado que ele é pela educação religiosa e outros significantes obsoletos; não podemos exigir do sujeito contemporâneo que tenha obsessões religiosas estruturadas como as elucubrações do Concílio de Latrão.

 

A mãe e a criança

No que tange às obsessões femininas, é freqüentemente sobre o objeto criança que os sintomas se cristalizam: ambivalência e idéias de morte. Freud, ele próprio, mostra que defesas especificamente obsessivas do tipo formação reativa, isolamento e anulação da agressividade não são específicas. Também funciona assim com a ambivalência na histeria. “La haine contre [...]  choix d’objet.” (Freud, 1925, p. 86). Uma mãe que não quer sê-lo e que deixa cair seu filho, é o que Lacan chama de mãe fálica, como Clitemnestra na Electra de Giraudoux (Lacan, 1962-63, p. 144). A categoria de obsessiva ou histérica aqui é secundária.

Um exemplo: uma mulher de uns quarenta anos, mãe de dois filhos, é paralisada por uma inibição. Ela é jornalista, mas não consegue assinar seu trabalho: ela só escreve para que outra pessoa recolha os frutos do sucesso e o dinheiro no seu lugar. Essa dependência, que a aliena dos frutos de seu trabalho, a revolta; ela suscita essa raiva feminina, onde é frustrado seu desejo por reconhecimento. Ela se escraviza, seu nome nunca aparece em seu trabalho. De repente, ela não escreve mais para o autor e também, ao jogar seu bebê fora junto com a água do banho, não escreve mais para ela. Ela se apaga em sentido estrito, ao apagar seu nome, que é o de seu pai, não o de seu marido.

Ao mesmo tempo, ela pensa em um acidente que poderia acontecer com sua filha mais velha. As condições do nascimento desta lhe provocaram um sentimento de estranheza, como se sua filha não lhe pertencesse, como se não fosse seu prolongamento ou sua imagem. A paciente fica à distância de sua própria imagem; em sua divisão, ela se construiu uma imagem de mãe totalmente artificial.

Ela é a mais velha de uma família, na qual os meninos demoraram a chegar para o pai, e ela passou muito tempo aterrada pelos gritos deste quando criança. “Todas umas idiotas”, dizia o pai, do gênero feminino em geral. Uma fórmula significante foi particularmente isolada e decifrada: o equívoco: os gritos do pai, o “escrito do pai”1. Ela teve de trabalhar duro para superar suas limitações, estudar e ganhar títulos pelo seu saber.

O sucesso profissional, considerado como uma realização viril, geraria uma inflação, que parece verificar o paradigma obsessivo; o sentido gozado que ela atribui ao nome do autor contém uma inflação fálica impossível de suportar. Ela se auto-anula e se retira da cena literária, o que torna seu frenesi narcísico compatível com sua modéstia. O enlace de uma inibição intelectual, no lugar de ideais superegóicos contrariados pelo veredito paterno, e o embaraço que causa a presença de uma criança vai no sentido do sintoma. Ela duvida; e procura tudo no pensamento. Entretanto, não há nenhum rebaixamento do falo neste caso.

Diríamos muito bem, que para ela, ter sucesso é imitar um homem; este paradigma dá, muito bem, conta da inibição do pensamento pelo conflito que grassa entre maternidade e feminilidade; auto-punição e pulsão mortificante? Apostaremos mais nas confusões contemporâneas da identificação...

Não tentamos, em todo caso analisar “a defesa antes da pulsão”, segundo o clichê consagrado, procuramos questionar a insatisfação do desejo de nossa escritora, como conseqüência do parasitismo de seu pensamento, muito mais do que das dificuldades relativas à criança.

O que parasita a paciente é muito mais seu nome próprio. Esta denominação tomada ao pé da letra a incomoda: ela contém o significante de um excesso, de uma quantidade supernumerária; este significante a sobrecarrega. Ela sacrifica muita energia para carregá-lo. Acontece que ela se serve dos significantes de seu nome como de uma blasfêmia para se aliviar. A despeito desses sintomas “obsessivos”, a paciente não é ritualizada, não tem impulsões, nem culpabilidade: não confundamos a inibição do amor pelo ódio na neurose obsessiva com uma demanda de amor desapontada... Aqui, a ambivalência é relativa ao desejo do pai que ela apóia, e não à sua destruição.

 

As apostas para a direção do tratamento

No que tange às apostas da direção da análise, vemos o interesse que existe em distinguir uma estratégia da reivindicação fálica e da insatisfação, de uma estratégia de usura na qual o sujeito se consome ao se mortificar: “nada mais difícil do que colocar o obsessivo ao pé do muro de seu desejo”.(1960-61, p. 300) De fato, é como impossível que ela o apóia.

É, sobretudo, no caso da obsessão que a resposta à demanda é a menos apropriada. É nesses casos que medimos até que ponto uma análise, conduzida a partir do dom da palavra ou de reparação, é caduca; ela transforma a psicanálise em religião, o que é o cúmulo para um sujeito obsessivo; fazer de uma religião duas. Também nas advertências relativas à demanda de falo - à qual não é aconselhável ceder para não fixar o sujeito em sua cólica (Lacan, 1966, p. 261-281). Lacan ainda faz ,certamente, uma alusão à Bouvet e à sua ausência de distinção entre desejo e demanda.

Não é impossível pensar que, haja vistas à polêmica política que havia à época na SPP, Lacan tenha se servido do caso Renée como um paradigma do que não deve ser feito: reparar, satisfazer uma demanda de reconhecimento, propor uma nomeação (ao contrário da vacilação calculada para a histérica), tantos problemas que o passe tornou sensíveis e aos quais Esthela Solano consagrou alguns artigos. Há, então, provavelmente, uma incidência da decifração lacaniana da neurose obsessiva feminina sobre os princípios gerais da direção da cura, e é uma boa razão para enriquecer a clínica. No que concerne à atualidade do tipo clínico, podemos pensar que os parâmetros da neurose obsessiva habitualmente utilizados, envelheceram: uma atmosfera de religião e de convento envolve os casos da literatura clássica. A ideologia feminista, a luta dos sexos e o ar do tempo vêm embaralhar as diferenças estruturais estritas e dar mais amplitude à reivindicação fálica ordinária do que à blasfêmia. A destruição das insígnias do Um fálico não milita obrigatoriamente em favor da obsessão: tanto a paranóia quanto a histeria podem se expressar assim. É verdade que a destruição do significante Deus na questão do gozo feminino a partir do Seminário XX: Encore poderia relançar o debate.(1972-73, cap. V).

 

Nota

1.    N.T.: Em francês, existe uma homofonia entre les cris (os gritos) e l’écrit, o escrito.

 

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Texto recebido em: 13/08/2007.

Aprovado em: 20/09/2007.